Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

O trabalho é para se ir fazendo?

Temos, como se sabe, tendência para comer e calar. A relativa paz social dos últimos quatro anos de austeridade está aí para o confirmar. Nos hospitais, então, a dependência do acto médico – e por vezes a tolerância perante a delicadeza das situações, verdade se diga – leva essa passividade ao exagero. Mas, como tudo na vida, tem momentos em que não.

Um amigo meu aguardava há quase duas horas – nas urgências de um hospital privado – que chegasse a altura de a sua mãe, nonagenária, ser atendida. O tempo passava e ele, farto de ouvir vozes por detrás de uma parede, perdeu a cabeça e invadiu o espaço reservado ao pessoal clínico. Aí, viu um médico a discutir com outro a actualidade futebolística e uma enfermeira a teclar com fúria no telemóvel, provavelmente a exercer numa rede social. Ouviram das boas.

A massificação de seguros de saúde leva aos hospitais particulares a saturação dos públicos. E em todos, a par de profissionais dedicados e com excesso de carga horária, não faltam também os que acham que o trabalho é para se ir fazendo. Fado português, esse.

Observador, Sábado, 26MAR15