O que Artur Agostinho pensa de… José Mourinho

 

Quando comecei a percorrer este país de lés-a-lés e, depois, a somar horas de voo em numerosas e variadas rotas europeias que me levavam aos lugares mais recônditos do Planeta onde se jogava futebol, hóquei em patins ou se realizavam Jogos Olímpicos, ainda não tinha nascido aquele que viria a ser o “Special One”, entre os treinadores de todo o Mundo.
A verdade é que nesse tempo, à distância de muitas décadas, já existia um Mourinho que marcava presença regular nos meus relatos de futebol. Era guarda-redes de um dos “históricos” do país – o Vitória de Setúbal – clube que continua vivo, com os seus mais de 100 anos, muitos deles cheios de problemas e sobressaltos difíceis e preocupantes, mas que iam sendo ultrapassados mercê de uma vontade indomável e de um espírito de sacrifício de gerações de adeptos vocacionados para resistir ao tempo e às crises.

O nome do pai.
Esse Mourinho – de seu nome completo Félix Mourinho – com quem me cruzei recentemente, no decorrer da celebração “Cem desportistas, cem anos da República”, é o pai, feliz e orgulhoso, do treinador José Mourinho, e foi um dos desportistas que a Confederação do Desporto de Portugal quis distinguir na gala que promoveu no Casino Estoril. Tive a grata oportunidade de lhe dar um abraço e com ele recordar alguns dos bons velhos tempos por ele vividos como guarda-redes do Vitória, com especial destaque para uma tarde gloriosa, no velhinho Campo dos Arcos, onde se festejou um regresso inesquecível à Primeira Divisão.
O brilho que, na noite dessa gala, iluminou os olhos de Félix Mourinho foi igual ao que descobri, há dias, no olhar de seu filho José, no momento em que lhe entreguei o troféu com o meu nome que, este ano, lhe foi atribuído por Record. Naturalmente, por ser mais uma prova de reconhecimento público pelo seu percurso invulgarmente vitorioso durante o ano de 2010, mas também – estou certo – porque, nessa ocasião, lhe confessei a muita admiração e estima que sempre tive por seu pai. E vi o “Special One” emocionado e, igualmente, feliz e orgulhoso.

Conhecer o homem.
Tenho aprendido muito, ao longo da vida, e cada vez vai sendo maior a minha convicção de que é através do diálogo que melhor e mais profundamente o ser humano nos transmite o que lhe vai na alma, permitindo, assim, que conheçamos, com algum rigor, a pessoa que realmente é.
Foi o que me sucedeu no Estádio Santiago Bernabéu, em Madrid, no encontro com Mourinho. Curiosamente, o mesmo que me tinha acontecido, em Manchester, com Cristiano Ronaldo, quando ali fui em missão idêntica.
Não me lembro de ter alguma vez conversado com José Mourinho. Ele pertence a uma geração de técnicos de futebol que não tive o privilégio de conhecer e de acompanhar nas suas muitas “aventuras” futebolísticas. A minha época foi a mesma de Mestre Cândido, Tavares da Silva, José Maria Antunes, Otto Glória, Riera, Bella Gutmann, José Maria Pedroto, Anselmo Fernandez, Fernando Vaz, Artur Jorge, Mário Wilson, Manuel José, Meirim e de alguns mais cujos nomes, de momento, não me ocorrem.

Sinceridade.
Seja como for, a verdade é que naquela hora e meia que se seguiu à entrega do troféu e durante a qual José Mourinho se submeteu às perguntas que os meus companheiros de Record, sem cerimónia nem tabus, lhe foram fazendo, o técnico do Real Madrid “ajudou-me”, com as suas respostas, que eu pudesse ter ficado a conhecê-lo melhor como homem e grande profissional que realmente é.
Deu gosto ver como Mourinho enfrentou todas as perguntas que Record lhe fez e lhes deu respostas claras, sem rodeios, sem hesitações – sem subterfúgios. Revelou-se sempre um interlocutor seguro de si, com os pés bem assentes no chão, sabedor, inteligente, realista, frontal e determinado. Confessou-se muito feliz com tudo o que já conquistou e confiante no que poderá vir a conquistar daqui para a frente. Fez, até, questão – com uma invulgar mas genuína sinceridade – de se afirmar preparado para perder, sobretudo sempre que qualquer dos seus opositores conseguir melhor do que ele e a sua equipa. E, a propósito, não se escusou a abordar a recente goleada que lhe foi imposta pelo Barcelona. Dando a sua opinião sem se preocupar que ela possa desagradar a quem quer que seja.

Arrogância.
Confesso que, enquanto Mourinho respondia às perguntas dos meus companheiros, cheguei a perguntar a mim próprio onde estava, afinal, o treinador que alguns dizem ser arrogante e provocador como, por vezes, as próprias imagens televisivas nos sugerem. Concluí que Mourinho sabe muito bem que há momentos em que “parecer” é mais importante do que… “ser”! E foi curioso e surpreendente ver como aquele homem que, tantas vezes, se apresenta nas conferências de imprensa de semblante carregado, expressão dura e olhar agressivo, revelou ser, afinal, um homem afável e até humilde, especialmente quando na situação incómoda de ser convidado a abordar a recente goleada sofrida diante do grande rival Barcelona. Sugiro-lhes que leiam, com atenção, essa parte do trabalho desenvolvido pelos jornalistas de Record. Genial o conceito só possível da parte de quem, tão habituado a vencer também sabe, afinal, conviver com as derrotas: “Antes quero perder uma vez por 5-0 do que cinco vezes por…1-0.” Genial e certíssimo! Como dizia o outro, “é só fazer as contas…

Frustração.
Apenas em jeito de nota de rodapé, porque não quero intrometer-me, abusivamente, no trabalho dos meus companheiros neste raide a Madrid, permito-me chamar a atenção dos leitores para dois pontos, na verdade reveladores do caráter de Mourinho: a avaliação entusiástica que fez de Cristiano Ronaldo e Di María e a surpreendente confissão de que a sua maior frustração em 2010 foi a nossa… Seleção. Vale a pena ler a seguir o que sobre o assunto, José Mourinho disse a Record.
Curiosamente, no final da partida com o Sevilha, José Mourinho sentiu-se na necessidade de voltar a enfrentar os jornalistas, com o tal “semblante carregado, expressão dura e olhar agressivo”. E tinha toneladas de razão ao apontar mais de uma dúzia de erros grosseiros a um “assoprador de apito” (como diria o já falecido Mário Viana, comentador da Rádio Globo), de nome Clos Gomez.

Cristiano Ronaldo.
Apenas uma pequena nota final: terminada a entrevista com o “Special One”, tive um encontro breve mas sempre agradável com Cristiano Ronaldo, que fez questão de me dizer estar felicíssimo por Mourinho ter recebido um troféu idêntico ao que ele também já recebera das minhas mãos, em 2008, em Manchester. Depois, despediu-se com um abraço e lá foi a correr, arrastando consigo Ricardo Carvalho para o transporte que os levaria ao hotel onde iriam ficar concentrados.

Crónica escrita por Artur Agostinho na sequência da entrega do prémio anual de Record com o seu nome a José Mourinho e publicada na edição de Record de 26 dezembro 2010

Partilhar

Os comentários estão fechados.