O quarto escuro de Passos Coelho

Passos Coelho não consegue disfarçar a decepção por não ter continuado a governar. E muitos dos seus apoiantes não esperavam, certamente, que no Parlamento, no dia em que a esquerda derrotou a moção de rejeição da coligação, o ex-primeiro-ministro insistisse no discurso do coitadinho.
Com a aura do poder, todas as pessoas se sentem realizadas – e parecem até bonitas e virtuosas. Como disse Bruce Lee num dos seus filmes, “o guerreiro vencedor é um homem comum com um foco de laser”. Até meados de Outubro, Passos Coelho emitia ele próprio luz, era esse vencedor que olhava, com um misto de bonomia e piedade, para os infelizes perdedores. Mas é quando o Mundo desaba, e o guerreiro volta a ter apenas a sua lança e a sua inteligência, que se afirmam os seres efectivamente superiores.
Na posse de António Costa, Cavaco Silva defendeu-se com a esfíngica marca da casa, enquanto Passos denunciou o incómodo no esgar de desdém e no olhar perdido. E assim prosseguiu em S. Bento, sem virar a página. Mas não o tomemos por um tonto afectado. Até à discussão do OE para 2017, o seu foco está em legislativas antecipadas que lhe devolvam o poder. E para isso há que manter no escuro quarto dos injustiçados as clientelas do PSD, que vão perder as prebendas, para que não pensem sequer em ter outro líder, afinal porque este ganhou as eleições que a realidade veio a demonstrar que perdeu.
Observador, Sábado, 10DEZ15
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