Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

O mágico que fez as coisas acontecerem

Na minha viagem pelo Record, procurei ser fiel à memória dos meus antecessores, que fizeram do jornal o que ele é: uma referência da informação desportiva. Gostaria, assim, de recordar nesta edição histórica quatro dos cinco jornalistas que permaneceram por mais de dez anos na liderança de Record e cuja marca aqui persistirá: Fernando Ferreira, José Monteiro Poças, Artur Agostinho e Rui Cartaxana.

Começo pelo primeiro diretor, que convidei para o almoço do 56.º aniversário. Era uma figura austera, pouco dada a convívios e que olhava para nós com a superioridade dos sábios quando encaram os ignorantes. Publicou depois aqui alguns textos, bem escritos, doutrinários mas demasiado longos, “defeito” que fez com que os seguintes ficassem por conhecer, perante a irritação do autor. Não pude, por isso, esclarecer com Fernando Ferreira a velha questão do nome Record, que ele contava ter sido inspirado numa sapataria de Londres, sendo certo que anos antes da fundação já outro jornal, com idêntico título, fora lançado em Portugal, embora sem êxito.

Artur Agostinho foi o diretor que deu ao Record, na década de 60, a visibilidade e a credibilidade definitivas. Tendo “A Bola” um grupo de jornalistas fortíssimo, tornou-se imperioso encontrar um nome que fosse em simultâneo indiscutível, do ponto de vista do conhecimento e da competência, e que tivesse a capacidade de “cimentar” um corpo redatorial formado por profissionais de diferentes artes – como era o caso do próprio Artur Agostinho – e que viam no jornalismo uma forma de aumentar o rendimento mensal. Tive a felicidade, em 2005, de trazer a lenda “de volta a casa” e de com ela poder desfrutar de alguns anos admiráveis.

De Rui Cartaxana está tudo dito, não só por termos trabalhado juntos – por vezes com atritos, é verdade – mas também por ele se ter mantido ativo até ao fim, fiel às qualidades que melhor o distinguiam: uma determinação de betão e uma coragem de ferro. O Rui foi o homem da transformação do jornal em diário, do avanço decisivo da cor, da chegada do Record ao patamar de vendas de 100 mil exemplares.

Termino com mágoa: a de não ter conhecido José Monteiro Poças, um dos fundadores do jornal e o maior responsável pela sua sobrevivência. Eu não teria passado por aqui e o leitor não leria hoje estas linhas se um gestor à prova de bala não tivesse agarrado o leme nos duros tempos de desalento e penúria. Sabendo alguma coisa de gestão, aqui me curvo perante a memória de três gigantes e de um herói, Monteiro Poças, o mágico que fez as coisas acontecerem.

Publicado na edição do 64.º aniversário de Record, 26NOV13