O futebol é muito traiçoeiro

Se fosse Paulo Bento a fazer o que fez na quarta-feira Del Bosque – aos 63 minutos, já a perder por 2-0 com o Chile e com pé e meio fora do Mundial, para meter Torres precisou de tirar Diego Costa – o que iria para aí na boca e no teclado dos nossos implacáveis comentadores. E, todavia, Del Bosque é o que é: só como treinador, foi duas vezes campeão de Espanha, campeão da Europa e do Mundo, vencedor de duas Champions, de uma Supertaça europeia e de uma Taça intercontinental.

O afastamento dos espanhois do Mundial – em dois jogos sofreram sete golos e marcaram um, e de penálti… – está claramente ligado tanto à quebra de rendimento do Barcelona e ao termo da sua era de domínio, como ao eclipse de energia do Real, que travou, após os 4-0 de Munique, a conquista de uma liga que parecia já não fugir. Da dezena de jogadores dos colossos ibéricos na seleção, sobrou Iniesta, que é imortal. De resto, de Casillas a Ramos, passando por Xabi Alonso, ou de Piqué a Busquets, continuando por Jordi Alba, Xavi ou Pedro, pode vir o diabo e escolher o que se apresentou no Brasil em pior forma. Não foi só o fim de uma geração, foi também a corda – da condição física, da automotivação permanente, da inacreditável sucessão de jogos dos últimos dois anos – esticada até aos limites do absurdo, muito para lá da fronteira da capacidade do ser humano.

Aqui, entram as comparações com a situação portuguesa. Como Casillas, Sergio Ramos e Xabi Alonso, igualmente Pepe, Fábio Coentrão e Cristiano – os seis hoje “out” ou “presos por arames” – fizeram parte da equipa do Real Madrid que, há menos de dois meses, foi a Munique destroçar o Bayern. E pelos vistos “acabar” também com os seus próprios jogadores. Sim, o mesmo Bayern que tinha agora meia dúzia de titulares na seleção que nos goleou, “retribuindo” os 4-0 a CR7 e companhia. O futebol é, felizmente, muito traiçoeiro.

Mas ao contrário da Espanha, que vai para casa a tinir, Portugal perdeu apenas um jogo, não interessa por quantos. Está, por isso, ao alcance dos nossos jogadores recuperar o orgulho, melhorando a atitude. Há que procurar a sorte que faltou, trocar a bola, fazer correr os “camones” e ganhar. Só de pensar que já não existe papão espanhol, a mim dava-me logo fogo no rabo.

Canto direto, Record, 21JUN14

 

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