O contra-julgamento de Carlos Cruz: os juízes julgados na RTP

Mesmo que seja culpado, Carlos Cruz tem todo o direito de se reclamar inocente, de criar um site para continuar a defender-se, e até, se assim o entender, de procurar reunir os meios legais e financeiros para lançar um canal de televisão por cabo, que emita 24 sobre 24 horas sempre a bater na mesma tecla: a sua alegada ausência de culpa.

Ele foi, aliás, o mais fustigado dos arguidos do caso Casa Pia, e vítima, ainda na chegada ao tribunal no dia da sentença, de mais uma chocante investida dos repórteres, que literalmente o empurraram para um caminho sem saída e tiveram depois a lata – e a estupidez – de lhe perguntar se estava… “nervoso”.

Mas o “tempo de antena” que lhe foi concedido esta semana, na RTP1, constituiu outro erro não menos chocante. Que sejam invocados “critérios jornalísticos” – que facilmente se rendem ao percurso de um comunicador que marcou gerações – para o convidar à segunda e à quinta, compreende-se. Agora que num canal de assumido serviço público se estendam essas oportunidades de modo a permitir um verdadeiro contra-julgamento, com o julgado a julgar os próprios juízes, isso já é um abuso.

Um abuso, digo bem. E este, enfim, com prova documental que não deixa dúvidas.

Antena paranóica, publicado na edição impressa do Correio da Manhã de 11 setembro 2010

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