O Benfica e a manchete que há 50 anos irritou o franquismo

Os diários portugueses rejubilaram há dias com a vitória do Benfica sobre o Atlético de Madrid, que perdeu em casa pela segunda vez em 28 jogos europeus. Mas talvez porque os tempos sejam outros, não ousaram ir tão longe na criatividade quanto o Mundo Desportivo, em 1965. A propósito da célebre goleada – 5-1, com golos de Eusébio (2), José Augusto, Simões e Coluna – que o Benfica infligiu, na Luz, ao Real Madrid, para a Taça dos Campeões, aquele trissemanário, que pertencia à mesma empresa do Diário de Notícias, a ENP, titulava então na primeira página: “O Vale dos Caídos mudou-se para Lisboa”. E na crónica do jogo justificava-se a metáfora: “Não foi realmente a batalha de Aljubarrota. Nem tão pouco a de Valverde, ou qualquer outra em que os espanhóis e os portugueses tivessem escrito páginas gloriosas da sua história. Mas foi bonito assistir-se à vitória do Benfica…”

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Nada dado a graças, o regime de Franco sentiu-se atingido pela imaginação lusitana – o Vale dos Caídos é um monumento aos mortos nacionalistas da guerra civil espanhola – e lavrou o seu protesto, pelo que a autoridade de Salazar agiu: o Mundo Desportivo esteve suspenso uma semana e o seu chefe de redacção, José Valente, que assinava a crónica, foi demitido. Em comunicado, a ENP e o director do jornal lamentaram e repudiaram as “expressões que muito feriram a sensibilidade dos leitores” e consideraram José Valente “o único e total responsável pelo escrito”. E foi assim. Depois, com a sensibilidade dos leitores vingada, tudo voltou à normalidadezinha do Portugal de há 50 anos.

Parece que foi ontem, Sábado, 8OUT15

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