O arquiteto que fundou o MPT

Telles82 Apesar de já não ser um adolescente, entrei com nervosismo no edifício da Rua Gomes Teixeira em que tinha o gabinete, em Outubro de 1982, o então ministro de Estado do Governo da AD, Gonçalo Ribeiro Telles.

Não era a entrevista para o semanário Off-Side que me agitava, mas a emoção de ir conhecer uma apaixonante figura da democracia, que admirava desde que integrara as listas da CEUD, de Mário Soares, nas eleições folclóricas de 1969.

O meu trabalho nesse final de tarde acabaria por constituir uma marca no meu percurso profissional, já que a carreira posterior do arquiteto dos grandes combates viria a ser igualmente rica, sempre com a defesa do Planeta, da Natureza e da qualidade do ambiente como lema de vida.

Na agradável conversa fiquei a conhecer, entre muitos outros, um facto curioso e que quero partilhar: as camisolas do Sporting, herdadas do anterior clube, o Campo Grande, eram inicialmente azuis e brancas, e só adoptaram o verde, uma das cores da nova Bandeira, após a implantação da República. Um pormenor revelado pelo paisagista que impulsionou o corredor verde para Monsanto e que fundaria, 11 anos mais tarde, um movimento, o MPT, percursor do partido que faz hoje tremer os interesses instalados.

Do PPM ao MPT

Após o 25 de abril, Gonçalo Ribeiro Telles, agora com 92 anos, fundou o Partido Popular Monárquico (PPM), foi subsecretário e secretário de Estado do Ambiente de diversos governos, depois ministro de Estado e da Qualidade de Vida, e vereador da Câmara de Lisboa pelo Movimento Alfacinha, que criou. Em 1993, fundou o Movimento Partido da Terra (MPT), de que é presidente honorário.

O intruso do Partido da Terra

A catástrofe para os partidos do poder estava anunciada e cumpriu-se: dois terços dos eleitores ficaram em casa, 245 mil votaram branco ou nulo, o PCP cresceu, o MPT elegeu dois deputados, o Livre passou os 70 mil votos e os dez partidos mais pequenos tiveram a preferência de 225 mil eleitores. Juntos, PS, PSD e CDS ficaram pela primeira vez abaixo dos 60%. Se fosse possível reunir os votos pulverizados do protesto teríamos aí o vencedor das eleições.

Agora, chovem justificações para o êxito de uns e a débâcle de outros. Olhando a realidade, restam poucas dúvidas de que mais do que derrotar a política de austeridade, muitos portugueses – 775 mil recusaram votar num dos cinco partidos com assento parlamentar – quiseram punir o sistema do sempre os mesmos, das caras de pau, dos interesses, dos arranjos, dos truques e das mentiras.

O fenómeno Marinho e Pinto não nasce da defesa da Terra e da gestão dos seus recursos, que está na génese do MPT, mas da empatia e da confiança geradas por um intruso que fala curto e claro. Veremos a seguir como irá o partido encarar a invasão da inevitável legião de oportunistas e se não se fecha, como outros, à volta de uma clique iluminada. Só o sangue novo, de ideias e de métodos, que o MPT parece transportar, recuperará, para a política, o sorriso dos cidadãos.

Parece que foi ontem, Sábado, 29MAI14

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