Nóvoa, névoa e integridade

Regresso de um breve período de férias e reencontro o velho país sempre em festa: depois da emocionante candidatura de Henrique Neto à Presidência, eis que ecoa pelos altifalantes do grande manicómio Portugal o nome de outro candidato não menos arrebatador: Sampaio da Nóvoa, que se diz admirador de Eanes, o que revela alguma esperteza. Para uma respeitável pessoa que ninguém conhece nada mais útil do que colocar no próprio espelho o rosto do homem que não mentiu, não roubou e se limitou a servir os portugueses.

Mas para lá das novidades folclóricas, a desgraça verdadeira foi não ter reencontrado o país exactamente como o deixei, pois em poucos dias a névoa da morte levou-nos Herberto Hélder, Sevinate Pinto, Manoel de Oliveira e José Silva Lopes, mestres em áreas diferentes, unidos pela isenção, cidadania e liberdade de pensamento – e cuja partida nos empobrece.

Dos quatro, conheci apenas aquele a que Pedro Marques Lopes chamou “poeta da minha vida”. Trabalhámos na mesma redacção, em 1975, e podia contar episódios desse convívio diário, o que não farei porque ele não gostaria. Privilegiado, adiantarei simplesmente que me marcará até ao fim o que lhe vi, num ano de brasa – e de sobrevivência tão difícil: o seu inflexível respeito pela ética, o desprezo pela querela partidária e a interpretação, genuína e única, do significado da palavra integridade.

Observador, Sábado, 9ABR15

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