Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Não basta que Jorge Jesus exista

Quantos egocêntricos conhecemos ao longo da vida? Muitos. E não precisamos de uma licenciatura em psicologia para distinguirmos facilmente os positivos, cujo ego se desenvolveu em torno de alguns méritos, dos falsos, que mais não pretendem que disfarçar a falta de confiança nas respetivas capacidades, o reduzido apego ao trabalho e a baixíssima autoestima. Sabem que não são capazes e tentam, desesperadamente, convencer-nos do contrário. Certo é que dos seus verdadeiros “eus” nunca rezará a história.

Perigosos são os egocêntricos positivos. Não quando querem que o mundo gire à sua volta num daqueles ciclos felizes em que os seguidores os incensam, mas quando perdem o controlo da vaidade e condicionam as suas decisões ao crescimento de um “eu” já sem capacidade para engordar mais. Tornando-se negacionistas da realidade, esses egocêntricos deixam de servir os objetivos de quem os contratou e desprezam até a subsistência de quem deles depende e os ajudou a fazer o caminho.

Jorge Jesus é um egocêntrico positivo, que construiu a ideia que faz de si mesmo sobre os muitos sucessos que o currículo regista. Jogador talentoso mas mediano, encontrou na preparação e liderança de equipas a praia perfeita, acumulou sabedoria ao ritmo da experiência que foi acumulando e há uma década que é um dos grandes treinadores do mundo, não dependendo já do que possa fazer no futuro para provar o que quer que seja. É um profissional bem sucedido, é um vencedor, ponto final.

O problema reside no equívoco em que vive, após ter convencido os adeptos que pode continuar indefinidamente a ter sucesso apenas por existir. Como se o futebol não fosse a ciência do imponderável, que permite triunfar hoje, amanhã e talvez depois, mas nunca conquistar tudo e sempre. Que o diga José Mourinho, que tendo já ganho o que havia, recomeça a cada ano um novo percurso, em busca de uma glória que passou e não é seguro que volte. E não será por falta de capacidade – é o futebol que é assim.

Ao regressar à Luz com promessas megalómanas e ao exigir, poucos meses à frente, mais laterais e centrais, médios e avançados para um plantel de luxo, Jesus começou a perder a aura de um deus junto dos fiéis. E não sendo pelos resultados, os vencidos da vida escolhem outra má nova: o Benfica não joga nada. Não é bem assim? Pois não, mas o treinador pôs-se a jeito. E se perder sexta-feira, no Dragão, entrará num túnel de desilusão de onde dificilmente sairá.

O parágrafo final é dedicado à excelsa liga portuguesa e a todos os que saúdam o seu equilíbrio competitivo. Como se vê, esse equilíbrio é um verdadeiro nivelamento por baixo, com as últimas oito (!) equipas separadas por apenas dois pontos e com o sétimo classificado, o Santa Clara, a ser um dos 12 (!) emblemas que lutam para fugir à zona de descida, já que quatro simples pontinhos o afastam dos três últimos. Sim, lá competitivo é.

Outra vez segunda-feira, Record, 11jan21