Jorge Jesus: o homem que partiu para poder voltar

O regresso de Jorge Jesus ao Benfica estava escrito nas estrelas. Tratado como descartável em 2015, criticado por só apostar em jogadores feitos, por desvalorizar as pérolas da academia e até por não fazer parte do projeto de Luís Filipe Vieira, processado judicialmente e classificado como inimigo ao assinar pelo Sporting, e de novo esquecido em 2019 – quando na Luz se pensava ter descoberto, em Bruno Lage, uma mina de ouro – aí está o homem. Após 13 meses de glória e seis títulos no Flamengo, e mais uns milhões de euros para meter na arca que trouxera da Arábia Saudita.

A vida é assim, nos seus altos e baixos, e Jesus retorna ao Benfica para substituir o anterior projeto de Vieira – em que ele não “cabia” – pelo projeto de si próprio. E ao contrário do presidente, que lhe põe todos os trunfos na mão, JJ ganhará sempre, tenha ou não êxito na revisita. Porque assina, aos 66 anos, um contrato sumptuoso. Porque se falhar, não lhe faltarão clubes, a começar pelos do Brasil, com o Flamengo em espera eterna. E particularmente porque deu a volta por cima a uma situação injusta e humilhante, podendo ainda – após dois anos sem sabor – ir comer umas boas cabeças de garoupa ao Solar dos Presuntos. Não é para todos.

Apontei-lhe muitas vezes a truculência desnecessária e não passei a considerá-lo um “gentleman” só porque ganhou. A verdade é que, nas circunstâncias difíceis com que se debateu, só a “outra face” de Sérgio Conceição, a da determinação e da coragem, permitiu ao FC Porto tornar-se campeão. Mérito também de outros, sem dúvida, mas quem mais críticas ouviu e leu, quem pior dormiu e mais sofreu é quem merece hoje a vénia de quem não vê no futebol uma guerra. Chapeau!

Meteram-me na caixa do correio a revista “Lisboa”, editada pela Câmara Municipal para propaganda da obra feita ou a fazer. Uma das realizações mais badaladas, a rede de ciclovias, justifica, nas páginas 12 e 13, um gráfico que anuncia mais 30 quilómetros até setembro e outros 20,5 em 2021. Teria tudo a favor desta fobia demagógica mas útil se ela fosse acompanhada da indispensável compatibilização com o trânsito automóvel. Nomeadamente, através da introdução de lombas ou quebra-molas que obrigassem à redução da velocidade – a maior ameaça para quem circula de bicicleta e um cancro da cidade – e mesmo de câmaras nos principais semáforos, de forma a reprimir os “artistas” que passam com os sinais vermelhos, “incentivados” pela quase total ausência de policiamento no tráfego da capital. Dito isto, fecho a crónica com uma palavra de solidariedade para a família de Ana Oliveira, a basquetebolista do Sporting, de 18 anos, morta em Lisboa, no Campo Grande – uma zona perigosíssima e praia preferida de “aceleras” – quando circulava de bicicleta e foi surpreendida por uma viatura que não terá respeitado o sinal vermelho. Penso, especialmente, nos pais de Ana, cuja dor conheço e que acompanho com profundo pesar.

Outra vez segunda-feira, Record, 20jul20

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