Jesus, um mestre que não aprendeu

A primeira palavra do primeiro texto desta edição de Record é devida ao treinador da equipa que ontem venceu o clássico, de cuja capacidade para treinar o FC Porto sempre duvidei. O tempo acabou por dissipar as minhas reservas e não reconheço agora o mérito de André Villas-Boas apenas por causa do resultado histórico que obteve – nunca o Benfica perdera por 5-0 no antro dos dragões – mas também por me parecer consolidado o alto rendimento de jogadores como Sapunaru ou Maicon, mesmo de Guarin e até de Bellushi, cujas qualidades o técnico potenciou. Sem esquecer que hoje já ninguém sente a falta de Bruno Alves ou de Raul Meireles, não por terem perdido qualidades, mas simplesmente porque Villas-Boas arranjou outros. Por muito que a sorte o possa vir a abandonar, esta marca de qualidade permanecerá.

A segunda palavra vai para Jesus, que sendo, segundo o próprio, um “catedrático” do futebol, fez no Dragão figura de aprendiz. E pior, de um aprendiz que não aprendeu.

Muito do inêxito de Quique Flores no Benfica passou pelas múltiplas experiências que o espanhol fez com o plantel e, entre elas, a “mania” de fazer, do grande central que David Luiz é, o modesto lateral que ontem reapareceu. A facilidade com que Hulk o “sentou” no lance do primeiro golo e o papel de “barata tonta” que representou na jogada do segundo estão na origem da goleada e são o “remake” da “chapa 4“ da época passada em Liverpool.

Ao reincidir no erro estratégico desse jogo da Liga Europa, Jorge Jesus não só “inventou” e falhou. Vai também sentir os efeitos que os 10 pontos de atraso, “destemperados” por esta duríssima humilhação, terão na Luz.

Trata-se, na realidade, do abanão que antecede a derrocada. Luís Filipe Vieira não engolirá esta afronta e não quererá continuar a pagar 2,4 milhões euros/ano a um “profeta” que prometeu o Paraíso e agora arranja desculpas. Será sua a próxima cabeça que o implacável líder servirá em bandeja de prata às massas que nunca amaram o grande mestre da táctica, o “intruso insensível” que não deixa jogar Moreira, que despediu Mantorras, que manda Nuno Gomes para a bancada.

Jesus sobe o Gólgota para acabar na cruz.

Minuto 0, crónica a publicar na edição impressa de Record de 8 novembro 2010

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