Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Jesus entre o sonho e a realidade

A entrevista de Jorge Jesus à Benfica TV foi um festival de autoconfiança. Desde logo da própria estação, que se lança agora em altos voos e que recorreu ao “savoir faire” de um vice-presidente-jornalista para entrevistar o técnico. Depois, do próprio Jesus, que aos 58 anos atravessa o que pode ser o cume da sua carreira.

O treinador, que inicia a sua quinta época consecutiva no Benfica – como Otto Glória nos anos 50, ou mais tarde Toni e Eriksson, de forma intercalada, proeza de “longevidade” que já ninguém lhe tira – foi igual a si próprio, elevando a fasquia ao máximo: quer ser campeão nacional, estar nas finais da Champions, da Taça de Portugal e da Taça da Liga, e naturalmente ganhá-las.

Embalado, manifestou também a convicção de que o Benfica está mais perto de recuperar a “hegemonia do futebol português”. Aí, porém, o caso fia mais fino. Os encarnados podem até reivindicar de imediato parte dessa “hegemonia”, pois foram campeões em juniores e juvenis, e o seu maior rival perdeu, além desses campeonatos, igualmente o de iniciados, para o Sporting. 

A questão é que Dona Hegemonia precisa de títulos da equipa principal, muitos, e títulos repetidos ao longo de vários anos. E como, nas derradeiras quatro épocas, o Benfica só venceu um campeonato e três Taças da Liga, o que falta pedalar para alcançar esse objetivo pode ser demasiada estrada para os dois anos de contrato do treinador.

Por isso, mais do que espalhar boas intenções quanto ao futuro a entrevista valeu pelos recados voltados para o presente, desde o “perdão” a Artur à esperança depositada na qualidade de Lisandro, passando pela remota esperança no regresso de Coentrão e na permanência de Matic, bem como na maneira como Jesus “despachou” Cardozo de vez, voltando a condenar o que já estava condenado e terminando com uma frase significativa: “O presidente dará a resposta”.

Como poderá ter de dar outras, se entrando no domínio da realidade se mantiver o estado de ficção.

Canto direto, publicado na edição impressa de Record de 6 julho 2013

A entrevista de Jorge Jesus à Benfica TV foi um festival de autoconfiança. Desde logo da própria estação, que se lança agora em altos voos e que recorreu ao “savoir faire” de um vice-presidente-jornalista para entrevistar o técnico. Depois, do próprio Jesus, que aos 58 anos atravessa o que pode ser o cume da sua carreira.
O treinador, que inicia a sua quinta época consecutiva no Benfica – como Otto Glória nos anos 50, ou mais tarde Toni e Eriksson, de forma intercalada, proeza de “longevidade” que já ninguém lhe tira – foi igual a si próprio, elevando a fasquia ao máximo: quer ser campeão nacional, estar nas finais da Champions, da Taça de Portugal e da Taça da Liga, e naturalmente ganhá-las.
Embalado, manifestou também a convicção de que o Benfica está mais perto de recuperar a “hegemonia do futebol português”. Aí, porém, o caso fia mais fino. Os encarnados podem até reivindicar de imediato parte dessa “hegemonia”, pois foram campeões em juniores e juvenis, e o seu maior rival perdeu, além desses campeonatos, igualmente o de iniciados, para o Sporting. 
A questão é que Dona Hegemonia precisa de títulos da equipa principal, muitos, e títulos repetidos ao longo de vários anos. E como, nas derradeiras quatro épocas, o Benfica só venceu um campeonato e três Taças da Liga, o que falta pedalar para alcançar esse objetivo pode ser demasiada estrada para os dois anos de contrato do treinador.  
Por isso, mais do que espalhar boas intenções quanto ao futuro a entrevista valeu pelos recados voltados para o presente, desde o “perdão” a Artur à esperança depositada na qualidade de Lisandro, passando pela remota esperança no regresso de Coentrão e na permanência de Matic, bem como na maneira como Jesus “despachou” Cardozo de vez, voltando a condenar o que já estava condenado e terminando com uma frase significativa: “O presidente dará a resposta”. Como poderá ter de dar outras, se entrando no domínio da realidade se mantiver o estado de ficção.