Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Jesus e o excesso de zelo policial

Quem me lê já há alguns anos sabe que estou sempre
do lado da polícia quando a opção que se põe é entre a ordem e a desordem
públicas. E nos últimos tempos, talvez por ser fã da série “Cops”, ganhei ainda
maior admiração pelo trabalho daqueles que defendem o primado da lei e zelam
pela tranquilidade dos cidadãos. Apesar da gritante escassez de meios com que
os nossos agentes se debatem – e até os norte-americanos, pode parecer mentira
mas é verdade.

Acontece que vivi o suficiente no período
anterior ao 25 de abril para entender que o uso da força só é aceitável se for
feito na proporção justificada pelas situações. O que quer dizer que já não sou
a favor das cargas de pancadaria dirigidas não a baderneiros ou rufias
profissionais mas a pessoas que se manifestam sem violência e por motivos
razoáveis. E menos compreendo que para se imobilizar um adepto que entra indevidamente
no terreno de jogo para festejar um golo, uma vitória ou um título lhe caiam em
cima meia dúzia de “armários”, que o tratam como o mais perigoso dos criminosos.

Creio que terá sido o que passou pela cabeça
de Jorge Jesus, em Guimarães, quando viu o excesso de zelo e a desnecessária
agressividade que estavam a ser colocados na detenção de um benfiquista que
pretendia apenas ficar com uma camisola. Exagerou, é verdade, mas não agrediu.
Tentou simplesmente afastar, sem contenção embora, os braços dos agentes que dominavam
o homem à bruta. Crime de agressão? Acusação absurda que juiz algum no Mundo
ratificará. Crime de desobediência, certamente. Atitude reprovável, sem dúvida.
Mas nada mais do que isso, pelo que se exige que tanto a justiça desportiva
como a civil atuem agora com a conta, o peso e a medida que por vezes falta à
PSP.

Uma breve referência ao triste incidente do
Estoril, que envolveu dirigentes do FC Porto e o presidente da Associação de
Futebol de Lisboa. Se alguém agrediu alguém, deverá pagar por isso, mas eu,
depois de ouvir o discurso de “repúdio” de Nuno Lobo, durante uma jantarada,
sinto-me esclarecido. A necessidade de auto-afirmação leva certas pessoas a
perderem a noção do ridículo.

Canto direto, publicado na edição impressa de Record de 28 setembro 2013