Insígnias da FIFA e da ordinarice

Quando me iniciei no jornalismo, havia três caraterísticas dominantes nas redações: fumava-se muito, abusava-se dos cafés e falava-se mal – eram palavrões para a frente e para trás. Essa linguagem desbragada utilizava-se coloquialmente ou quando os pares se zangavam. Com uma ou outra exceção, os mais velhos não recorriam ao palavrão se tinham de meter a maralha na ordem. Por um motivo simples que se respeitava nesses idos de 60 e 70: não humilhar os mais novos e os mais fracos. Recordo particularmente o sr. Silva, na redação do “Diário de Lisboa”, que cortava e distribuía os “telexes” – “takes” com notícias das agências ou textos de repórteres em serviço no estrangeiro – e nos auxiliava a todos. Ele era um príncipe no tratamento: no que dava e no que recebia. O respeito tem sempre dois sentidos.

Esse respeito foi-se perdendo até ao advento das redes sociais, que acabou de vez com ele. Mas já antes havia sinais de que não caminhávamos para a mais saudável das sociedades. Há largos anos, integrei uma redação onde só se diziam palavrões: na conversa mais banal, o asneiredo era do pior. E nas reuniões, havendo mulheres, logo a ala dos frustrados recorria ao palavreado mais soez para lhes mostrar que o seu lugar era na cozinha. Noutra redação, as discussões eram pluridiárias, e jornalistas e gráficos, editores, chefes ou até escriturários engalfinhavam-se a toda a hora para, em altos berros, disputarem a Taça da Carroceirice. Imagine-se o rigor do trabalho, o cuidado com a escrita e a qualidade do serviço prestado ao leitor! Acredite-se ou não, anda tudo ligado: quanto maior a boçalidade, menor o profissionalismo.

Lembro isto a propósito do tristíssimo episódio ontem protagonizado por Jorge Sousa – o melhor árbitro português da época passada e com as insígnias da FIFA – que confrontou, em pleno campo, um jogador do Sporting B, não só de forma bastante ordinária como de um modo inadequado, ofensivo, desproporcionado e profundamente desumano. Porque o apitador não estava a dirigir-se a um igual, mas a um futebolista de 20 anos cuja sorte, naquela partida como nas que virão, depende das decisões e da imparcialidade do árbitro. Um jovem que não está capacitado – e muito menos dispõe dessa faculdade, face aos regulamentos – para lhe responder à letra, como merecia. Creio que foi a primeira vez na vida em que não me senti incomodado com algo que abomino e que Jorge Sousa considera “ruído”: os insultos nas redes sociais.

Um parágrafo final dedicado ao que interessa, ao grande campeonato que parece estar à nossa frente. Só foi pena, na última jornada, que o FC Porto tivesse baixado o ritmo após o 2-0 e não tentasse, com mais empenho, alcançar goleada idêntica às de Sporting e Benfica. Mas ficou a promessa de uma liga intensa, apesar de o Sporting precisar primeiro de regressar de Bucareste com o acesso à Champions no bolso. É que 15 milhões de euros não se perderiam sem consequências. E escrevo “perderiam” porque… eu “acardito”!

Outra vez segunda-feira, Record, 21AGO17

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