Hoje é Sábado: Uma luz cá em baixo

Se Correia de Campos tivesse recorrido a um vidente, ele ter-lhe-ia dito que nem valia a pena arrepiar caminho na Saúde, pois era a Ana Jorge que o trabalho de pacificação de médicos, enfermeiros, doentes e populações estava destinado. O mesmo teria sucedido com Maria de Lurdes Rodrigues, que passou mais de quatro anos a espingardar com os professores e a dar-nos cabo do juízo, quando afinal pertencia a Isabel Alçada a missão de contar uma história aos docentes e de os fazer adormecer no seu colo.

Tento ser racional, embora tenha, ao longo da existência, ultrapassado momentos tão difíceis que sou forçado a admitir que algo de estranho aconteceu. Podia enganar-se uma junta médica militar no tempo da guerra colonial? Aparentemente, não. Será possível estar a dois ou três metros da frente de uma viatura que circula a alta velocidade e ser puxado no último instante por mão invisível? Talvez, mas não é tão comum assim. Será natural terminar inesperadamente um almoço a meio e com isso fazer regressar mais cedo a casa uma pessoa que vai encontrar outra, prostrada, e salvar-lhe a vida? É bastante improvável. Terá muita gente resolvido virar-se ao sol, na praia, e ao olhar o mar ver uma criança a afogar-se, enquanto a mãe, de costas para a água, conversava? Penso que seja uma raridade. Mas tudo isso me sucedeu.

Se fosse recordar peripécias da minha actividade profissional, então, seria preciso reconhecer que houve bruxo na costa. Passei por diversas situações em que, falhados os objectivos, gastas as almofadas de protecção, desaparecidos os amigos, vitorioso o azar, esse réu de costas largas, o mundo parecia desabar. E todavia não estava, como se lá em cima alguém tivesse o poder de legislar em sentido oposto, de mudar o destino de um pobre mortal.

E será normal que uma pessoa decida modificar o seu futuro, defina para isso uma estratégia, identifique o anjo que detém a chave da porta que se quer abrir e dê, um após outro, os passos exactos que a levarão ao porto de abrigo com que sonhou? Mais: poderá consegui-lo em solidão, dependendo apenas da sua vontade, da sua determinação, da sua inteligência, da sua capacidade para fazer as coisas acontecerem? Talvez sim, mas quero confessar que tive a felicidade de encontrar, há já alguns anos, uma luz suave e discreta que, mais do que apontar caminhos, me leva a reflectir sobre aquilo que é porventura o mais importante: por onde não devo ir. E sinto que cheguei à altura certa para um upgrade: preciso que essa luz me ilumine um segundo antes de, por exemplo, me cair uma varanda em cima. Se calhar, peço-lhe demais, mas vivo mal com a ideia de vir a morrer de morte macaca.

Observador, crónica da edição da “Sábado” de 14 Janeiro 2010

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