Hoje é Sábado – Sai outro picareta

Temos finalmente candidatos a primeiro-ministro. E logo três. Falta saber a qual deles sai a prenda, sendo quase seguro que a nós nos sairá a fava.

Quem viver da ilusão de um novo Cavaco pode tirar os cavalinhos da chuva. É que pessoas com esse perfil, em que se mistura currículo com discrição, competência técnica com uma visão espartana da vida, estão de há muito fora da política. Distanciaram-se, em parte por não quererem confusões com coladores de cartazes, analfabetos, oportunistas ou caçadores de tachos, e por outro porque a vitória da demagogia levou os salários dos membros do Governo para níveis de tal forma desajustados que quem quiser lançar hoje um jornal pode contratar um ex-ministro ou deputado para a redacção e manter-lhe o nível de vida. Por isso, só se opta por uma carreira política em duas condições: ou por não se saber fazer mais nada ou por uma louvável e cada vez mais rara vocação para servir a causa pública. Trocando por miúdos, diria que é mais fácil ver aparecer um António Guterres do que um Cavaco Silva.

Viu-se no que deu o ciclo do picareta original. Muito diálogo, muita cedência às corporações, depois um amuo por causa de eleições que não o penalizavam directamente e o adeus. Foi assim do tipo consegui, já brinquei, agora não me apetece mais aturá-los. E com Durão Barroso aconteceu a mesma coisa. Trocou-nos por um prato de lagostas quando lhe surgiu a oportunidade. Nada, aliás, que os penalize: em 2016, como somos burros e desmemoriados, elegeremos um deles para suceder a Cavaco.

Voltando ao trio da candidatura ao trono laranja, parece-me óbvio que a maior fraqueza de José Pedro Aguiar Branco, um homem com todas as condições pessoais para primeiro-ministro, é ser o preferido dos socialistas, que o antevêem despedaçado às mãos de Sócrates. Logo a seguir, na lista rosa de prioridades, surge Pedro Passos Coelho, cuja frescura é praticamente anulada por um discurso político que pouco vai além da amálgama de conceitos martelados de que – o que é quase inacreditável – o seu livro Mudar constitui prova. E não havia ninguém que, ao menos, lhe organizasse aquilo?

Resta Paulo Rangel, que parte em último nas sondagens mas que depressa inverterá a situação, pois é o candidato que melhor poderá combater o PS. Novo picareta no discurso, especialista em demagogia e hábil no aproveitamento da impopularidade de um Governo que atravessa tempos de crise financeira e de credibilidade, Rangel constitui real perigo para Sócrates e para a sua habitual degola dos inocentes no Parlamento. O problema é que algo me diz que pode ser também um perigo para nós. E vamos ter de pagar para saber.

Observador, crónica publicada na edição da “Sábado” de 18 Fevereiro 2010

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