Hoje é Sábado: Imeldas e pelintras

Falar de sapatos sem recordar a antiga colecção de três mil pares da octogenária e justamente esquecida Imelda Marcos é não honrar a típica utilização de lugares-comuns de certo jornalismo que se faz por cá. Fica então cumprida a praxe, sublinhando que há muito mais Imeldas na Terra, algumas até ladies da modesta nata nacional, que têm um importante ponto em comum com a viúva do ditador filipino: não pagaram, ou não pagam, os sapatinhos.

É aliás um fenómeno próprio do denominado mundo da moda, essa coisa de emprestar roupa e calçado a algumas figuronas da praça, que não têm onde cair mortas, apenas com a expectativa de que a promoção ocasional na comunicação social cor-de-rosa leve uma ou outra dondoca mais abonada a largar as notas por um modelo com autor. Depois, e com as duas ou três honrosas excepções que se conhecem, é ver como termina esse filme, com o criador a saltar de loja em loja, deixando para trás uma penosa carreira de dívidas, burlas e histórias mal contadas. Enfim, são os sinais dos tempos numa paróquia de gente pequenina, que vive de aparências e que acredita que, para ser famosa, como lhe é prometido, basta aparecer na televisão a fazer macacadas e a dizer disparates, como se o talento e o trabalho não fossem, desde sempre, as duas maiores alavancas do sucesso na vida.

Tenho de me refugiar um pouco nestes terrenos anexos ao corte central para não me lembrar muito profundamente do meu passado sapateiro. Na década de 50, quando me iniciei nas artes futebolísticas no largo da feira de Canas de Senhorim, onde a malta quase toda jogava descalça, comecei a sofrer pressões familiares – que se prolongaram por uns 10 anos – para não estragar as únicas botas que tinha e que o meu avô ensebava com empenho na secreta esperança de as eternizar. Mais tarde, como era demasiado alto para os padrões da época – até me chamavam Torres, devido à popularidade do gigante do Benfica –, meti na cabeça que tinha a pata excessivamente grande, o que me levou a calçar o 43 em vez do 44, e a andar com os pés apertados e cheios de bolhas, um perfeito hino à estupidez, que tardei a silenciar.

Gosto de fazer o trabalho de casa e fui contar: entre botas, sapatos e ténis não vou além de uma dúzia de peças. A maior parte são de marca porque aprendi que o material é fundamental para o conforto e para a saúde, mas também para a durabilidade da coisa. Se Belmiro de Azevedo gosta de ter um bom carro e o mantém ao longo de 10 anos, este pobre aprendiz que eu sou compra sapatos para cinco. Se vivesse na Antiguidade, seria espartano. Detesto Imeldas, ou melhor dito: sou um saloio, a moda comigo não se safa.

Observador, crónica da “Sábado” de 21 Janeiro 2010

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