Hoje é Sábado: Imbecis mas vivos

Em Portugal, temos hábitos nada saudáveis e jogamos muito mais na roleta russa do não há-de ser nada do que nos cuidados com a saúde, que de todo não fazem parte do nosso quotidiano.

Sei que é feio olhar para o prato dos outros, mas horrorizo-me, nos restaurantes, com a quantidade e com a escassa qualidade da comida que certos clientes põem no prato. Desde logo, quando o famoso cozido à portuguesa está na ementa, com a parafernália de carnes gordas e de enchidos, capazes, numa hora, de nos abastecer de colesterol para um ano inteiro. E não estou a pensar em gente magra e saudável, já que também os obesos e os idosos fazem questão de comer toda a espécie de porcarias nos intervalos das idas ao médico. Encher a pança, e os centros de saúde e os hospitais, é um passatempo português.

Em lugar das clássicas queixinhas do senhor doutor, dói-me aqui; senhor doutor, não faço bem a digestão; senhor doutor, tenho passado tão mal as noites, melhor resultaria algum tento na alimentação e exames clínicos de rotina antes das corridas para atulhar as urgências.

Outro sinal revelador da falta de cuidado que temos com a própria vida damo-lo ao volante. Qualquer calhambeque serve para esticar a corda até aos cento e muitos km/hora, os pneus carecas interessam pouco, o código da estrada ainda menos, pelo que é carregar no acelerador, encomendar a alma ao Criador e… pode ser que se escape.

A seguir vêm as dependências, a começar pelo tabaco e a acabar nas drogas pesadas, passando pelo álcool e pela automedicação, essa tendência suicida de meter pela boca abaixo pastilhas para tudo e mais alguma coisa.

Confesso que durante muitos anos comi deficientemente, não liguei o que devia à saúde, arrisquei demasiado na estrada e só não me meti na drogaria porque salvei sempre a minha rica cabecinha de depressões, e de vícios e prazeres que o meu sentido de equilíbrio considerava excessivos. Tenho a mania que a existência é perigosa nos extremos e se controla melhor ao centro, com pequenas e reversíveis aventuras por terras do limite, cuja orografia desconhecemos e para cujos habitantes e ameaças não criámos defesas.

Mas acredito mais nos exemplos dos imbecis que chegaram a velhos – como os classificava Henrique II, em Becket ou a honra de Deus, de Jean Anouilh. Manoel de Oliveira passou dos 100 anos porque manter-se activo e actualizado se tornou norma de vida, e Artur Agostinho vai a caminho dos 90, graças, como reconhece, ao exercício diário da escrita, de que não abdica. Ponho ainda uma cereja no bolo: há que viver cada hora com a intensidade que colocaríamos nos nossos últimos momentos. E talvez amanhã o sol nasça outra vez.

Observador, crónica da edição da “Sábado” de 28 Janeiro 2010

Na foto, cena de “Becket ou a honra de Deus”, de Jean Anouilh, pelo Núcleo de Teatro das CRGE (EDP), corria o ano de 1972. E não vale a pena duvidar: é mesmo… o artista.

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