Hoje é Sábado: Ídolos com pés de barro

Quando iniciei o meu percurso jornalístico, a imprensa portuguesa apostava bastante na crítica: de cinema, teatro, música, dança, literatura e televisão, especialmente de televisão, um fenómeno emergente. Ainda por cima, só havia RTP e alguns programas medíocres, de vesgo cariz político e monopartidário, de maneira que a malta das esquerdas – que eram muitas e se odiavam fraternalmente – malhava neles a torto, a direito e tanto quanto a Censura deixava.

Como criticar estava na moda, verdadeiros especialistas como Mário Castrim, Lauro António, Carlos Porto, Nuno Barreiros, Maria Helena Dá Mesquita, Maria Helena de Freitas ou Urbano Tavares Rodrigues eram seguidos por aprendizes de feiticeiro, cada um apostado em ser mais furioso dramático e arrivista do que os concorrentes, algo que a primavera marcelista permitiu não por desejo de abertura do regime mas como sinal claro da sua decadência.

Não podia deixar de integrar essa corrente de todos os excessos e devo ter escrito coisas horríveis para além das que me lembro e que felizmente já são poucas. De nada me arrependo hoje, pois julgo ter amadurecido mais à custa dos erros e das injustiças que cometi do que das páginas que tombaram do calendário ou dos cabelos que me caíram da cabeça.

É à luz dessa maturidade que reconheço que não aprecio programas como o Ídolos, com os seus pés de barro. Sem dúvida que pôr jovens a cantar ou a dançar e avaliá-los por isso é bem mais útil e pedagógico do que criar ridículas celebridades cujo currículo se resume a fazer macacadas. Aliás, num País onde não se formam empreendedores, mas apenas funcionários, só ganhamos em valorizar eventuais qualidades artísticas ou desportivas em vez de promovermos a inércia e a dependência. Desse ponto de vista, que venham mais Ídolos.

Da parte que eu não gosto é do mal que estes concursos – e não me refiro em especial ao programa da SIC – fazem aos vencidos e aos vencedores. Estes, avaliados por supostos jurados que se limitam a ser simpáticos para as claques de apoio, com medo de ouvirem o que não gostam, são brindados com exageros como mágico, maravilhoso, magistral, fabuloso, nasceste para isto, etc. Depois, quando os holofotes se apagam e como o País tem uma indústria de espectáculo moribunda, voltam para as cantigas na escola e para os serões em família. Prometem-lhes a floresta e só têm para lhes dar uma árvore: a da desilusão.

Já os vencidos não são mais bem tratados. Eliminados por falta de capacidade financeira para as chamadas de valor acrescentado das votações, julgam-se incapazes e sem talento, podendo até ser os melhores. E lá se perdem para o êxito nas outras vertentes da vida, assassinados em nome das audiências.

Obervador, crónica publicada na “Sábado” de 4 Fevereiro 2010

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