Hoje é Sábado: E se “eles” tivessem desaparecido?

Spínola foi útil? Talvez não.
Soares serviu? De pouco.
Sócrates faz falta? Nenhuma

A vida teria sido melhor se Hitler tivesse desaparecido quando a mãe o mandou ao pão? Sem dúvida. O que se duvida, sim, é que a Europa fosse a sociedade de nações que é hoje sem a tragédia da Segunda Grande Guerra. Idêntica reflexão se poderia fazer sobre os portugueses que marcaram o último meio século? Guardando as devidas distâncias, pensemos então em Portugal sem Salazar, Caetano, Spínola, Otelo, Soares… ou Sócrates.

Oliveira Salazar desapareceu – foi visto pela última vez debruçado no forte de St.º António, a ver o mar. Seria bom para os nossos compatriotas que deram a vida ou sacrificaram a família pela liberdade, e mesmo para o País, que não se atrasaria 40 anos? Seria. Mas o que teria sido de Portugal com a continuação dos desvarios da I República? Ainda seríamos independentes?

Marcello Caetano desapareceu – disse que ia tomar chá com Kaúlza de Arriaga e nunca mais se soube dele. Poderíamos ter dispensado os serviços do professor de Direito e saltado logo para a democracia? Poderíamos. Mas quem criaria, nesse caso, as condições de amolecimento do Estado Novo que permitiram aos capitães ousar discutir a guerra e preparar a revolução?

António de Spínola desapareceu – pôs o cavalo a galope pelas matas do Buçaco e não voltou ao hotel. Tendo feito o que fez em 1974, o general foi-nos útil? Talvez não. Mas sem o seu livro e o seu carisma como se criaria a bola de neve da contestação e qual seria a referência dos militares para mudar o regime?

Otelo Saraiva de Carvalho desapareceu – meteram-no no Campo Pequeno e nunca mais o deixaram sair. Não haveria 25 de Abril sem ele? Claro que sim. Mas depois do golpe falhado pelos bravos das Caldas, a 16 de Março de 1974, ficámos a saber que não se pode brincar às revoluções. Se os planos de Otelo não tivessem sido minuciosos, e depois religiosamente cumpridos, quanto tempo mais aturaríamos Caetano e a sua clique?

Mário Soares desapareceu – ficou a dormir a sesta no carro quando o motorista foi almoçar. Na situação de penúria em que nos encontramos, de que nos serviu, afinal, o seu contributo? Se calhar, de pouco. Mas sem o homem da resistência, do combate ao totalitarismo, da integração europeia ou das presidências abertas como viveriam hoje os portugueses? Em ditadura, numa democracia popular ou apenas num estado isolado do Velho Continente?

José Sócrates desapareceu – partiu num cruzeiro com Pacheco Pereira, o casal Moniz e Belmiro de Azevedo. Faz falta? Nenhuma. Portugal sem ele seria um país melhor? Bem, aí peço desculpa, mas antes de acreditar no freguês que se segue não ficarei grato por este ir dar banho ao cão.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 27 maio 2010

Nota – Estas crónicas respeitam. sempre que possível, o tema de sociedade da Sábado, que era, desta vez, pessoas desaparecidas.

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