Hoje é Sábado: A maçã podre e o diabo

Quebro agora, creio que pela segunda vez em seis anos, a regra de não escrever sobre desporto nesta coluna. Mas o caso da transferência de João Moutinho do Sporting para o FC Porto coloca-me a necessidade de uma reflexão que gostaria de partilhar com os meus leitores.

Do ponto de vista desportivo, está quase tudo dito. O presidente do Sporting, José Eduardo Bettencourt, e os seus ajudantes de campo, incluindo naturalmente Costinha, deixaram chegar a situação a um ponto de não retorno. Dessa culpa não se livram, já que que são pagos para cheirarem as chatices e resolverem-nas, antes sequer de existirem. E foi o que não fizeram.

O verdadeiro problema de João Moutinho, sejamos claros, chama-se dinheiro. Ao entender isso – e ele entende tudo muito rapidamente – Pinto da Costa filou o osso e nunca mais o largou. Foi, aliás, graças a esse instinto-assassino que o líder portista desviou Falcão e Álvaro Pereira da Luz, contratou Cristian Rodríguez nas costas do Benfica e fez André Villas-Boas pôr fim ao acordo que tinha com o Sporting – isto para referir só as proezas mais recentes.

Pretextos a Moutinho não faltavam depois da última e catrastrófica temporada do Sporting, um clube que, sabemos hoje, dependia muito mais do que parecia do cimento que Paulo Bento constituía. Atirada pela borda fora a capacidade aglutinadora de um técnico desgastado (!) por quatro vice-campeonatos consecutivos, seguiu-se a época de todos os erros em Alvalade, e o que se construíra pacientemente depressa ruiu como um castelo de cartas. Foi por isso fácil fazer com que o desespero se apoderasse de um jovem, inquieto pela modéstia relativa de 100 mil euros de salário e apenas seguro pelo apoio da estrutura, a confiança dos técnicos e o carinho dos adeptos. Quando começa a sentir o tapete a fugir-lhe debaixo dos pés, o capitão arrependido passa a dormir com a ambição e deixa-se atormentar pelo diabo.

É aqui que a direcção dos leões volta a falhar. No Dragão – e a comparação é facilitada pelo próprio Bettencourt nesta reverência ao rival nortenho que os associados do Sporting jamais perdoarão – quando não se conseguem liquidar os problemas à nascença, antecipa-se-lhes a morte. Em Alcochete, chegou-se ao ponto de João Moutinho se recusar a treinar e de enviar mensagens que se compreendem à luz da sua imaturidade mas que também o condenam face ao sentido de responsabilidade que se lhe conhece. Afinal, que gestão é esta?

Uma sociedade comercial não pode desvalorizar assim os seus ativos, nem classificar de maçã podre um símbolo da sua marca, que só a inabilidade deixou perder valor. As folhas secas são imagens de outro campeonato.

Observador, crónica publicada na edição impressa de Record de 8 julho 2010

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