Hoje é Sábado: A era dos poucochinhos

A fase pós-Sócrates
não nos trará mais
Santos Silvas. Vem
aí a fornada dos
Ricardos Rodrigues

O episódio protagonizado pelo vice-líder parlamentar do PS, Ricardo Rodrigues, cujo guião, escrito pelo próprio, assentou numa confiscação de gravadores da SÁBADO que cobriu de ridículo o senhor deputado, não é um mero pormenor da vida política, e encerra, antes, um significado preocupante.

Não gosto do ministro Augusto Santos Silva, que em boa hora Sócrates nos retirou da tutela da comunicação social, mas reconheço-lhe a solidez de pensamento – a que naturalmente corresponderá a acção no terreno – que o qualifica para funções partidárias e governativas. E não aprecio, igualmente, o estilo pretensioso de Pedro Silva Pereira e o seu perfil de Richelieu de S. Bento, embora admire a sua capacidade para não dizer asneiras: apenas lhe tenho ouvido palavras marcadas pela sobriedade e pelo bom senso.

Identifico-me mais com José Sócrates, é verdade, e muito pela campanha suja de que tem sido alvo – como sucedeu, aliás, com Santana Lopes, e como não deixará de acontecer com Pedro Passos Coelho – e pela coragem com que, até certa altura, fez o que lhe competia, enfrentando as corporações. Mas estou farto de o ver como suporte de gente pouco preparada, pouco inteligente, pouco discreta e, especialmente, com pouquíssima categoria.

Feito o pleno do que está por detrás destes três exemplos, direi que me sinto, como já hoje, por certo, a maioria dos portugueses, maduro para apoiar outras ideias e outros executantes. O pior, como se sabe, é encontrá-los.

Esta geração de políticos só vagamente se pode comparar às que tiveram Soares e Sá Carneiro, Cunhal e Freitas, Balsemão e Mota Pinto, Guterres e Durão Barroso. É fruta de uma segunda apanha, são dedos para guitarras que tocam para ouvidos menos exigentes. E muito também por culpa, é um facto, da demagogia da pescadinha de rabo na boca, que levou os coladores de cartazes ao poder autárquico, e daí ao Parlamento, e baixou o nível salarial dos que se dedicam à causa pública para punir a sua fraca qualificação.

Atenção, por isso, à fase pós-Sócrates, que não nos trará mais Santos Silvas, nem Silvas Pereiras, e menos ainda Jorges Coelhos ou Pires de Limas, Morais Sarmentos ou Antónios Vitorinos. Vem aí a fornada dos Ruis Pedros Soares – e refiro-me tão-só à postura mediática do ícone desta tendência, não ao que terá feito ou deixado de fazer – e dos Ricardos Rodrigues, que ganham milhões em cargos de nomeação partidária ou desviam os gravadores dos jornalistas, é o que for. Mas o drama real está, antes de tudo, na sua falta de dimensão política e na dificuldade que sentimos para lhes descobrir alguma capacidade técnica ou intelectual. Vamos entrar na era dos poucochinhos. E merecemo-los.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 6 maio 2010

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