Hoje é Sábado: “24horas”, a queda de um demónio

Após 12 anos de vida atribulada e dois ou três de dolorosa agonia, deixou de se publicar o diário 24horas. Encerrado o Tal&Qual há menos de três anos, o grupo Controlinveste – que fechou também esta semana o gratuito Global Notícias – liquidou assim o segundo sonho de um dos maiores visionários da imprensa portuguesa, o jornalista José Rocha Vieira. Curiosamente, foi Joaquim Letria, co-fundador do Tal&Qual e seu primeiro director, há 30 anos, quem assinou a crónica da última página da derradeira edição do 24horas. São assim os jornais, criações do talento humano que os humanos, com os seus erros e imperfeições, deixam perecer.

Durante um ano, dois meses e 22 dias, entre Novembro de 2001 e Fevereiro de 2003, tive a honra e o prazer de dirigir o título agora desaparecido, integrando, com jornalistas brilhantes, a melhor equipa redactorial que conhecera até então. E isso não é coisa pouca, se considerarmos que fui pigmeu, por quatro anos e há quase quatro décadas, numa redacção do Diário de Lisboa que tinha gigantes como Urbano Tavares Rodrigues, Luís Sttau Monteiro, Fernando Dacosta, Mário Castrim, Neves de Sousa ou José Freire Antunes. Mas aí havia individualidades, enquanto no 24horas tínhamos uma verdadeira equipa, que foi capaz, com o apoio de um marketing muito qualificado, de subir as vendas do jornal dos 29.612 exemplares de Novembro de 2001 até aos 56.120 de Fevereiro de 2003. São números – e contra números não há argumentos.

Quando passei a dirigir o Record, e para não sofrer, matei o pai. Deixei de ver o 24 e só fui sabendo das modificações de risco a que o submeteram, a partir de 2006, porque delas me davam conta ex-companheiros que não conseguiam, como eu, cortar a sua ligação afectiva ao jornal. E compreendi assim, há muito tempo, que o 24 caminhava para o ocaso, aliás, com o sinal de perigo bem colado na testa, já que os seus responsáveis pareciam não ver, a cada mudança, o que toda a gente via: que pregavam mais um prego no caixão.

Estou certo de que nenhum director, chefe, editor, repórter, gráfico ou vendedor tem culpas neste cartório. Todos deram, como eu, o melhor de si e se entregaram com total dedicação. Mas eu tive um privilégio de que outros não dispuseram: trabalhei com gestores que conheciam o mundo da publicidade, que entendiam a lógica do marketing, que estavam na redacção todos os dias, que geriam euro a euro e que possuíam ainda mais uma qualidade – percebiam de jornais. E um diário moribundo e deficitário que esbanja, até ao último dos seus domingos, 64 páginas de papel, para encher de conteúdos que há muito o mercado rejeitou, morreu abandonado. E não ficou em paz.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 1 julho 2010

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