Hoje é Sábado – Sem um pingo de piedade


Na Jerónimo Martins,
a alvorada dá-se às 8 e 45
da madrugada. Trata-se
de uma violência

Numa fantástica entrevista à SIC Notícias e ao jornalista Gomes Ferreira o empresário Alexandre Soares dos Santos traçou há dias um implacável retrato do que é hoje Portugal e do que são os nossos desgraçados hábitos. Estou de partida para umas pequenas férias, animado pelo sol que voltou a brilhar, e não quero aborrecer os meus leitores com o sublinhado do preocupante conteúdo dessas declarações, que vêm, aliás, na linha do que, talvez mais moderadamente, Belmiro de Azevedo afirmou na recente entrevista à Visão.

Fixo-me apenas na passagem em que foi referida a violência da hora a que começam as reuniões de trabalho na Jerónimo Martins: 9 da madrugada. Como se não bastasse esse toque de alvorada, os participantes têm ainda o dever de comparecer às 8 e 45, a fim de que haja um curto período para a conversa de chacha, se olhem as capas dos jornais ou se pergunte pela família. Ou seja: às 9 em ponto começam de facto a tratar do que os leva ali.

Gostei desse pormenor e em especial de saber de alguém que entende do que fala e que me garante ser a minha mania da pontualidade um hábito que não faz de mim um extraterrestre.

Quando cheguei ao Record, tive de deixar à porta alguns jornalistas que se atrasavam para as reuniões, e hoje o encontro de planeamento semanal começa ainda religiosamente às 12 e 30 – deixamos tarde a redação, não poderíamos trabalhar com Alexandre Soares dos Santos – só porque em devido tempo se criou o hábito e o monge permaneceu.

Devo reconhecer que a minha vida ficou, neste particular, muito facilitada, por ter iniciado o meu percurso profissional na rádio, uma atividade em que mesmo os segundos contam e que não se compadece com a cultura do pouco mais ou menos tão popular nos nossos dias. Fui até multado em meio dia de salário pela atitude negligente de não ter feito ir para o ar o primeiro – e apenas o primeiro! – dos cinco breves silvos que constituíam o famoso sinal horário da estação oficial, uma coisa horrorosa que nem sei se continua a existir porque nunca mais a quis ouvir.

Claro que nos jornais tudo é diferente e, se a fazer contas, por exemplo, somos um desastre – outro gap que nos impediria de entrar na Jerómimo Martins – no incumprimento de horários ninguém nos bate. Com uma pequena diferença para o resto da nação: é que os jogos de futebol ou as cerimónias oficiais – estas desde que não envolvam Sócrates – não vão além de atrasos ligeiros. E nós estamos lá. Quanto ao resto, já me rendi. Afinal, português que se preze não renega o chão que o viu nascer. E como não é o Pingo Doce que me paga, são eles a levantar o rabo da cama e eu a virar-me para o outro lado.

Observador, crónica publicada na edição impressa da “Sábado” de 18 março 2010

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