Hoje é Sábado – Segredos comuns

É segunda-feira, 1 de Março. Procuro inspiração para escrever esta crónica, que não é, feliz ou infelizmente, coisa que se faça apenas com transpiração. Olho para o televisor, sem som, e vejo Rui de Carvalho a ser homenageado pelos seus magníficos 83 anos. Não ouço o que se passa, quero concentrar-me. Além do mais, irritam-me vénias ao has been, preitos a velhos considerados monumentos nacionais por andarem cá há muito tempo. E depois, como detesto esse tal de Baião, estão todos para ali caladinhos.

Bem, o problema é que vejo o Rui a limpar as lágrimas, enquanto desfila pelo estúdio demasiada gente que admiro. Sinto-me obrigado a ouvi-los, até dar comigo a chorar, sensível ao humanismo do distinguido e à diferença, que ele estabelece, entre um actor de montra e o actor de bengala – que ele há-de ser dentro de muitos anos, acrescento eu. Pronto, isso interessa-me.

É bonito honrar as pessoas que chegaram lá, em especial se não premiarmos igualmente os que se limitam a estar na montra. Porque ficará sempre tudo por dizer sobre um actor de corpo inteiro como Rui de Carvalho e todas as palmas que lhe batam só poderão pagar uma pequena parte da sua qualidade artística. E muito pouco do sofrimento em que está assente uma carreira como a dele. As horas de trabalho solitário, a decorar textos e a estudar a correcta composição das personagens. As dúvidas quanto às opções tomadas, as angústias pela hora da verdade que se aproxima, e os medos de que possa não ter encontrado a estreita linha que o conduzirá, e ao seu trabalho, ao coração do público. E as refeições que se ignoram, os serões perdidos, os fins-de-semana inexistentes, as férias tantas vezes adiadas, essa parte preciosa da vida que se rouba, sem retorno, à família e aos amigos.

Há mais. Para se ser Rui de Carvalho é indispensável o talento e o esforço, claro, mas também uma capacidade extraordinária para manter, sempre, a mesma preocupação com a actualidade, a mesma humildade face à eterna ignorância do homem, a mesma sensibilidade para admirar as crianças e as flores, a mesma generosidade para compreender os outros, o mesmo respeito pelos colegas e pelo público, o mesmo grau de exigência consigo e com a sua profissão. Se pararmos para pensar, verificaremos que o Rui consegue o pleno, ou seja, domina todos os segredos que constroem os monstros.

Pelo vidro da minha gaiola, aqui na redacção de Record, vejo alguns companheiros acomodados, indiferentes, vencidos – não chegaram à montra, muito menos usarão bengala. Porque se o actor é, como o poeta, um fingidor, o jornalista lida apenas com a verdade. E ao não ser capaz de olhar para si próprio é o primeiro a ignorá-la.

Observador, crónica da revista “Sábado” de 4 Março 2010

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