Hoje é Sábado – O rosto da indignação

José Sócrates terá ganho as últimas eleições legislativas ao desviar milhares de votos do Bloco de Esquerda no debate televisivo em que confrontou Francisco Louçã com o programa bloquista de acabar com as deduções fiscais resultantes das despesas com a saúde e com a educação. O primeiro-ministro teve aí um dos seus melhores desempenhos, ao exibir uma facies de profunda indignação por esse ataque soez ao rendimento das famílias. Até Jerónimo de Sousa aproveitou para de imediato se demarcar do BE e recuperar, também ele, alguns votos que já lhe tinham escapado.

Sócrates pretendeu nessa altura assustar todos os pagantes de IRS e apanhar-lhes os papelinhos nas urnas, quando poderia – se a sua estratégia fosse a da verdade – esclarecer Louçã que não estava de acordo com o fim das deduções para todos os agregados familiares, mas que se encontrava em perfeita sintonia com o Bloco se os prejudicados fossem apenas urricos, ou seja, esses gananciosos portugueses que auferem mais de mil euros por mês, um exagero que deve ser punido.

E tanto assim era que, chegada a hora da verdade, o Governo do PS avança com a medida que o indignaria se a ideia viesse do Bloco, e vai estabelecer tectos para as deduções a partir do terceiro escalão do IRS, algo que no dia em que escrevo não sou capaz de decifrar mas que não duvido que possa afectar mesmo quem aufira bem abaixo do tal limite de riqueza de mil euros.

Isso atingirá em cheio o bolso da classe média-média e até da média-baixa, já que se fosse só a média-alta a pagar o Estado não se safaria. E com urricos verdadeiramente ricos, então, ainda menos. Esses, ou não entregam declarações ou andam hoje muito divertidos porque lhes vão agravar a taxa de 42 para 45%. No fundo, adoram dar esmolas.

No meio deste vendaval, o que faz a oposição? Diz que sim mas que também, que quer ver é os detalhes do PEC e que, blá, blá, jamais concordará com a subida dos impostos e com a estagnação dos salários, tentando mascarar com o habitual discurso de desdém pelo Executivo a sua satisfação hipócrita pelo ataque socialista às famílias: ou porque, à esquerda, se odeiam urricos ou porque, à direita, se evita mais essa chatice quando se der o regresso ao poder.

Derretemos o dinheiro com burlas, incentivos à parasitagem e demagogias várias, e temos agora de o devolver a quem nos deu crédito. Não somos capazes de avançar com a reforma administrativa? Não faz mal, promovemos a inveja social. E para que não se pense que as coisas podem melhorar, acabo de ouvir Paulo Rangel, o supra-sumo da barbatana alternativa, a clamar pela suposta interferência do Governo na justiça. Nada me preocuparia mais nesta altura.

Observador, publicado na edição impressa da “Sábado” de 11 março 2010

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