Hoje é Sábado – Nené já suja os calções



Há 26 anos, o jogador
salientava a “harmonia
muito grande” de que
a sua família desfrutava

Nené é um velho conhecido. Quem se der ao trabalho de visitar o meu blog no sábado, dia em que costumo republicar estas crónicas, poderá ver também uma foto, tirada numa tarde de calor de 1984, quando eu e o jornalista João Bonzinho passeámos com o inesquecível jogador, no alto do Parque Eduardo VII, em Lisboa, antes de uma entrevista para o semanário Off-Side e para a qual o fotografámos igualmente com a mulher, Iria, e os filhos, Sandro e Paulo.

Aliás, aproveito para recomendar, em especial aos inimigos, o visionamento dessa imagem, já que a saloia figura em que me apanhou o repórter Rui Raimundo leva a que não tente sequer a publicação fortuita na SÁBADO, que tem um target que não se compadece com ridicularias.

Recordo o has been de há 26 anos com alguma clareza, desde a simpatia do casal Nené e a irrequietude dos miúdos até à admiração, indisfarçável, que os quatro (!) jornalistas que estavam à sua frente – o trabalho propriamente dito foi assinado pelo Mário Fernando – sentiam pela qualidade profissional de um homem que marcara 339 golos em 528 jogos oficiais pela equipa principal do Benfica, até ao final da época 1983/84. E que era, à data da entrevista, o mais internacional dos futebolistas portugueses.

Na história do clube da Luz, o nome de Nené, o jogador que não sujava os calções – e que chegou a admitir entrar um dia com eles sujos em campo só para irritar os detractores, que faziam dele bode expiatório quando os encarnados perdiam – consta como o terceiro maior goleador de sempre, depois dos míticos Eusébio e José Águas, e à frente de José Torres, o bom gigante.

Mas lembro ainda a ternura do craque benfiquista com a família, ao fazer questão de salientar a “harmonia muito grande” que havia entre todos, tendo mesmo acrescentado que se algum dos filhos viesse a ser futebolista gostaria que herdasse tanto as suas qualidades como os defeitos.

Dois anos mais tarde, Nené deixou os relvados e manteve-se ligado ao futebol e ao Benfica. E como responsável pelos escalões de formação adoptou uma discreção idêntica à que lhe permitia aparecer no momento e no local certos para surpreender os adversários e marcar os golos. Só voltou a ser notícia há meia-dúzia de anos, na altura em que o filho mais novo, Paulo, resolveu mudar de sexo e passar a ser Filipa.

De então para cá, Nené mudou e suja finalmente os calções. Embora não escondendo o sofrimento que a situação lhe provoca, cumpre a obrigação de um verdadeiro pai e aceita a opção de vida da filha. Um abraço, Tamagnini, continuas como quando nos conhecemos: sereno, generoso, fantástico.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 15 abril 2010

Aqui estou eu, com Nené e João Bonzinho, antes da entrevista, em Lisboa (Parque Eduardo VII, setembro de 1984)

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