Hoje é Sábado – Foi a bruxa do 2.º andar

O episódio mais engraçado em que participei e de alguma forma relacionado com estas histórias do Além deu-se quando estava no 24 Horas, a propósito de uma suposta regressão interpretada na televisão por uma actriz, ou ex-actriz, nem sei. Escrevi então – dada a minha condição de céptico em tudo o que diga respeito a incursões paranormais – que se teria tratado de uma representação, tendo em conta o percurso da tal comediante. O que eu fui fazer.

Poucos meses depois chamaram-me, pela 30.ª vez em dois anos, aquilo era a loucura, à PSP de Alcântara, Lisboa, para prestar declarações – e logo na qualidade de arguido, ou seja, o Ministério Público não tinha dúvidas quanto ao crime que eu cometera – acusado pela senhora de lhe ter causado problemas de vária ordem ao não considerar a sua performance como algo da maior importância e seriedade. E pedia-me, e ao jornal, uma indemnização e peras.

Valeu-me a experiência acumulada, que me aconselhava, já nessa altura, a recusar o depoimento na polícia, opção que a lei contempla, deixando aos advogados, na fase seguinte, a tarefa, no caso relativamente fácil, de provar ao juiz de instrução a inconsistência da acusação. Mais uns meses decorridos e o processo foi arquivado, não houve julgamento e eu livrei-me de ter que ir por diversas vezes – que em Portugal são sempre muitas, demasiadas – creio que a Setúbal, por causa de algo sem pés nem cabeça.

Recordo ainda o que se passou, também no 24 Horas, com a Maya, de quem era amigo e que colaborava naquele diário. Uma vez, fizemos uma manchete sobre qualquer coisa em que se envolveu e designámo-la por bruxa, uma bruxa com aspas, em sentido figurado, obviamente. Mas ela levou aquilo como uma ofensa e, em directo, num canal de TV, atirou com a edição do jornal e referiu-se-lhe em termos depreciativos, esquecendo-se que fazia igualmente parte da trupe. Aí, deu-se a ruptura e a Maya deixou nesse mesmo dia de colaborar com o 24, só tendo regressado após a minha saída para o Record, reabilitada por alguém menos sensível às resistências da memória.

E havia uma senhora, um bom meio século atrás, no 2.º piso do prédio alfacinha onde nasci, o 27 da Travessa do Possolo, que tinha artes de bruxaria e recebia uma clientela que muito incomodava a vizinhança. Uma tarde, vinguei-me e encomendei, por telefone, para a pastelaria Tentadora, um must de então de Campo de Ourique, uma dúzia de pastéis de nata em nome da velha e para ela pagar, eheheh! Vinguei-me de quê?, perguntarão. Ora, calculam o esforço que tem sido manter esta cabeça operacional com um parafuso a menos? Desconfiei sempre de um trabalhinho vindo do andar de baixo.

Observador, crónica publicada na edição da Sábado de 1 abril 2010

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