Habituemo-nos a uma seleção deste nível

Não vale a pena despedir Paulo Bento e a Seleção com lenços brancos e o grau de exigência desmedida de recentes bons tempos: o que ontem vimos em Aveiro é o nível da “equipa de todos nós” a que teremos de habituar-nos nos próximos meses. Talvez com mais jogos e o regresso de Cristiano Ronaldo a produção futebolística melhore, tem de melhorar, mas mesmo assim precisamos de reaprender a gostar da Seleção. Porque a explicação é simples: deixámos de ter muitos e bons artistas.

Não vi falta de atitude na partida contra a Albânia, não vi jogadores displicentes, acomodados, desmotivados. Ao contrário, vi empenho, entreajuda, vontade e até talento – soberbos nesse particular, Fábio Coentrão e João Moutinho. Simplesmente não deu porque a fazenda é curta para este fato.

Na sequência do derradeiro Benfica-Sporting, ouvi num debate o antigo internacional do FC Porto, Rodolfo, dizer uma verdade dura como punhos: no dérbi da Luz, estiveram três ou quatro futebolistas de primeira linha, o resto foi vulgaridade.

João Pereira não joga no Valencia e não temos lateral-direito mais eficaz. Ricardo Costa trocou o “primeiro futebol” pelos petro-dólares e lá está, de pedra e cal, simplesmente por ser ainda a melhor solução. Nani já não é o Nani que prometia ser um segundo Cristiano… Não será, mas quem o supera nas alas? Éder é um ponta de lança medíocre? Pode ser, só que tem potencial. E já agora uma pergunta: o último grande golo que marcou ao serviço do Sp. Braga é de um avançado medíocre? Não valerá a pena apostar nele?

Andamos há anos a não apostar nos jogadores portugueses, que chegam aos 18 ou 19 anos e têm de procurar vida nos escalões secundários, contratamos todo o bicho-careta que os empresários querem colocar no nosso mercado e depois queixamo-nos? Que oportunidades tiveram em Portugal, por exemplo, André Gomes, Ivan Cavaleiro ou Luís Neto? Até um dos maiores goleadores de sempre da Seleção, Pauleta, só singrou porque João Alves o “desviou” do Estoril para Salamanca e de lá conseguiu arrancar para uma bela carreira.

Por muito que isso nos custe, temos de enfrentar com coragem esta fase de renovação da equipa nacional. Deixemos crescer alguns jovens com talento e talvez com os veteranos de qualidade que restam cheguemos ao Europeu. Talvez…

Canto direto, Record, 8SET14

 

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