Habitantes das nuvens em congresso

Não têm fontes, nem uma simples agenda de contactos, não assumem responsabilidades, não sabem rever um texto ou escrever um lead, não trazem notícias – que lhes passam à frente sem darem por elas – e nunca deram uma manchete. São maus na reportagem, boçais nas entrevistas, analfabetos em números, péssimos em relações sociais, ignorantes da realidade. Criados na escola da dependência e da preguiça, são de natureza pouco prestável e tornaram-se imprestáveis em redações multimédia, mas insistem em considerar-se jornalistas, animados pela bênção do compadrio corporativo, por sua vez apaparicado por um poder político de consciência pesada. Com muitos anos de emprego, poucos de trabalho e vencimentos do tempo em que o dinheiro jorrava, são quase inamovíveis e barram as carreiras a jovens generosos, cheios de vontade de vencer e carregados de sonhos, enganados por cursos que formam licenciados a um ritmo criminoso.

Num debate televisivo, ouvi há dias um tolinho extasiado com os gostos que o jornal do patrão tem no Facebook – e que não lhe pagam o salário – e irritado com os palermas que perseguem o break-even empenhadamente, como se todos tivessem receitas de supermercado para cobrir os prejuízos. Foram anjos como esse, habitantes das nuvens, que saíram delirantes de um congresso manipulador e que, como se esperava, tirou o foco do que realmente interessa para a salvação: menos conversa, menos show-off e mais trabalho.

Observador, Sábado, 26JAN17

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