Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Gordo e Pantera Negra para sempre

A primeira sensação com que ficamos, depois de sabermos que a federação inglesa suspendeu Cavani por três jogos por ter respondido ao elogio de um fã, no Instagram, com um “gracias, negrito”, é que sendo grave o problema os britânicos não brincam. Abriram um processo e num mês ditaram a punição, uma coisa ligeiramente parecida com os inquéritos no futebol português, que não só se arrastam por vários meses como são decididos nas alturas mais incompreensíveis ou talvez não – estará em vinha de alhos o de Otávio e, ao que dizem as más línguas, nas mãos de uma senhora que odeia o FC Porto, a fazer fé num senhor que odeia que nos lembremos do desempenho dele.

Sim, o caso do racismo é sério, demasiado sério para que haja um mínimo de contemplações com os seus agentes. O que não quer dizer que sejam racistas os que utilizam, sem a mínima intenção pejorativa – como sucedeu ainda não há muito tempo, com Bernardo Silva, num diálogo com um amigo – imagens ou expressões como… “gracias, negrito”. Até o diminutivo “negrito” revela a ternura que o craque do MU colocou na frase.

Quem me conhece sabe que sou contra os preconceitos, todos e seja qual for o seu género, e no entanto levo 15 anos a chamar “gordo” ao Fernando Mendes – eu sei que não é bem a mesma coisa – e há mais de meio século que em largas dezenas de ocasiões me referi a Eusébio como o… “pantera negra”. E como não sou Cavani, continuarei a fazê-lo, o que significa que considero o castigo do internacional uruguaio – que entenderia o sentido de uma simples advertência – exagerado, demagógico e estúpido. Sim, é certo que atrás dos Cavanis da vida se escondem os mastins da barbárie, que devem ser travados mal metam a pata de fora. Mas… “gracias, negrito”?

A propósito de estupidez, reconheço que manifestei sérias reservas à vinda de Antonio Adán para Alvalade. Suplente licenciado – sete jogos pelo Atlético de Madrid em duas temporadas – profissional com escola mas provavelmente marcado pelo seu rotundo falhanço quando Mourinho lhe deu a oportunidade de substituir Casillas no Real Madrid, em 2012, tudo indicava que o guardião espanhol, de 33 anos, começaria por impedir que Luís Maximiano, de 21, se tornasse noutro Rui Patrício e acabaria por se revelar um “flop”. A verdade é que não desapontou os que apostaram na sua contratação e se o Sporting inicia o ano novo como terminou o velho, na liderança, sem derrotas e com a defesa mais sólida do campeonato, muito a Adán o deve. Frente ao Sp. Braga, foi um monstro. E não me falem em sorte porque as traves só gostam dos grandes guarda-redes.

Em menos de dois anos, foram três meses no Varzim, cinco na Académica, outros cinco no Chaves e sete semanas no Moreirense. A carreira de treinador de César Peixoto, com resultados desportivos modestos, parecia seguir, finalmente, pelo caminho correto: chegara ao escalão principal, obtivera cinco pontos em cinco jogos e tinha a sua equipa no oitavo lugar. Um choque de egos com o presidente dos “cónegos” estará na origem do divórcio – e logo em vésperas da visita ao Dragão, uma péssima altura para desertar. César terá as suas razões mas deverá compreender que será agora mais difícil que um empregador confie em alguém que não consegue aguentar nem meio ano a desenvolver um trabalho.

O último parágrafo vai para o Charmoso, o artista único que sem aviso nos deixou, abrindo mais uma brecha no mundo que desaparece para os da minha geração. Com ele parte um mestre da palavra, um intérprete sublime e insuperável. E também um cidadão comprometido com o país e um belenense fiel que honrou até ao fim a promessa que fez ao pai. Até sempre, Carlos do Carmo.

Outra vez segunda-feira, Record, 4jan21