Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Foi por tua culpa, Catarina, que não vi o Maradona

Quando soube da morte de Maradona, logo me soltaram da memória fragmentos de alguns dos seus melhores golos. Depois, fui ganhando consciência de que jamais estivera, ao menos, perto do craque argentino, e que não dispunha, portanto, de uma simples foto com ele. Ou seja, não poderia competir no campeonato do “eu conheci Maradona mesmo que ele nunca tenha sabido da minha existência”. Sim, Futres, Cristianos e Mourinhos temos por cá poucos, mas tal como sucede com a água benta, presunção cada um toma a que quer.

Acordei para a realidade quando me contactou o jornalista Pedro Martins, da SportTV, que me recordou um facto já perdido na poeira do meu arquivo profundo. Dizia-me ele, e estava certo, que eu recebera, em 1983, em Viseu, dois prémios Gandula – atribuídos anualmente aos “melhores do desporto” pelo jornalista brasileiro Wilson Brasil, colunista da “Gazeta dos Desportos”. Uma das distinções foi para o diretor do semanário “Off-Side” – cargo que eu devia ao visionário do projeto, Ilídio Trindade, e a João Tito de Morais – e a outra para uma página de comentários, tipo de “A” a “Z”, que assinava com o pseudónimo de Jorge Caiágua.

O interessante da história não esteve, obviamente, nos prémios do escriba, mas na estrela da noite… Diego Maradona. Então com 22 anos, a jogar a sua primeira época no Barcelona e não sendo ainda o astro global em que se tornaria, ele aceitara ir a Viseu receber o Gandula. Eu é que já não tinha ideia disso e precisei de encontrar, na edição do “Off-Side” de 8 de abril de 1983, a prova do delito, captada pela objetiva de Rui Raimundo. Do delito, digo bem, que foi o ter participado na mesma cerimónia que Maradona – com Pinto da Costa, João Rocha, Pedroto, Acácio Rosa, Nené, Quinito, Fernando Gomes, Manuel Fernandes, Rui Tovar e tantos outros – e de não me ter cruzado sequer com ele… E tudo por culpa da Catarina.

É verdade, estava divorciado havia meia dúzia de meses, tinha uma nova namorada que não se interessava por futebol e, como fui dos primeiros a ser chamado ao palco, peguei nas estatuetas e saí, discreta e estupidamente, pela porta do fundo. Sem tão pouco saber que aquele que viria a ser o maior jogador do Mundo resolvera – vá lá entender-se porquê à luz do que eram aqueles tempos – meter-se num avião para Lisboa e rumar de carro a Viseu. E a seguir jantar com o Neves de Sousa e com o Fernando Emílio, e apresentar-se num pavilhão gelado para receber das mãos do Wilson Brasil um troféu igual ao meu, aos cinco que tenho hoje em casa… Burro, mil vezes burro!

O último parágrafo vai para Vítor Oliveira, referência do futebol português, que nos deixou cedo, muito também pela paixão que fez com que prolongasse até tarde o stress brutal do banco. E vai ainda para Reinaldo Teles, um daqueles homens da segunda linha sem os quais nunca os capitães conseguiriam fazer as coisas acontecerem. Duplo chapeau!

Outra vez segunda-feira, Record, 30nov20