Fernando Dias: Record perdeu uma dedicação insuperável e eu perdi um amigo

Desde o verão, quando a minha mulher me ofereceu o livro, que vinha adiando a sua leitura. Mas ontem, na viagem de Lisboa para Barcelona, devorei, literalmente, metade das páginas.

Parei ao aterrar no El Prat, liguei o iPhone e logo três mensagens consecutivas me deixaram KO. Todas me davam conta do súbito desaparecimento do jornalista Fernando Dias, memória privilegiada de Record, meu camarada de redação e meu amigo.

Conhecia-o há quase meia centena de anos, desde a década de 60, quando ele arbitrou inúmeros jogos de voleibol, de campeonatos em que participei. Reencontrei-o no Record, em 2003, e dele recebi, desde o primeiro dia, a colaboração que outros me negaram, e uma comovente lealdade. Ainda anteontem acertámos a entrega, ao FC Porto, de material impresso, da primeira metade do século passado, proveniente de espólios que nos foram doados e de que dispomos em excesso.

Perdi o Fernando. Não mais receberei tantos e tão valiosos dados da história do desporto português, nem terei, nos finais de agosto, os bolos de amêndoa que sempre me trazia do Algarve. Como ninguém me adiantará o pagamento anual das quotas do Belenenses, paixão comum, que fazia questão que eu satisfizesse ao mesmo tempo que ele.

Ficam felizmente connosco, no Record, o filho Rui e o neto Bruno, continuadores de uma dedicação insuperável, de um nome honrado que permanecerá. Deixo a ambos, nesta hora tão amarga, a certeza da minha total solidariedade.

Adeus, meu querido, vou sentir a tua falta. E não leias o resto desta crónica. É que devo ao leitor o título da tal obra há meses adiada e na qual ontem me decidi enfim a mergulhar: “A Morte”, de Maria Filomena Mónica, um ensaio avassalador. Vê para o que me havia de dar, a minha mulher nem quer acreditar.

Descansa agora, Fernando, e até um dia.

Passe curto, escrito em Barcelona e publicado na edição impressa de Record de 2 dezembro 2011

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