Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Falta de gratidão e de memória

Em junho, atribuímos o Record de Ouro a um nome relativamente esquecido mas extraordinário do futebol português: Rogério, Rogério Lantres de Carvalho, também conhecido por Pipi, mítico goleador do Benfica.

Já não tive à minha frente a popa que o celebrizou, e lhe deu a alcunha, nem o jogador que se distinguia pela elegância, dentro e fora dos relvados… e dos pelados, que era o que mais havia na década de 40. Nem seria possível que, perto dos 89 anos, mantivesse a imagem refinada dos bons velhos tempos. Mas encontrei um homem carregado de recordações, um pouco inconformado com o anonimato, ávido de partilhar recordações com quem desconhecesse do que foi capaz. Não era o meu caso – nem o de Record, que o Fernando Dias não deixava.

Há pouco, foi o Norberto Santos que se lembrou de ir à procura de Joaquim Branco, ex-recordista nacional e ibérico de 1.500 e 2.000 metros, quase 88 anos, outro campeão abandonado. Por motivos de agenda, a entrevista não foi publicada na edição para que estava apontada, nem nas seguintes. Situação normal na vida de qualquer diário, mas incompreensível para um velho atleta, um tanto à deriva no mar de um tempo que passou.

Recebi então, do antigo fundista do Belenenses, uma carta amargurada, repleta de recortes comprovativos de proezas passadas – como se fosse preciso, como se eu próprio não o tivesse ainda visto correr, sob uma enorme ovação, na improvisada pista de terra das Salésias…

O apelo final, que peço licença para reproduzir, dizia tudo: “Não me abandone!” Mas como poderia amparar os “heróis” do desporto um país que atravessa aquela que é, talvez, a época de maior egoísmo e indiferença da sua história?

Meu caro Joaquim, temos de resistir. Pelo menos enquanto o regresso da barbárie não tragar às sociedades o que lhes resta de gratidão e de memória. Vem cá receber também o teu Record de Ouro. E parabéns por tudo o que realizaste.

Canto direto, publicado na edição impressa de Record de 17 dezembro 2011