Eusébio no Panteão queiram ou não

Como preferimos o fútil ao sério, gostamos mais de arranjar polémicas, despertar animosidades e alimentar querelas do que trabalhar e ajudar a resolver os problemas, eis que descobrimos agora nova lenha para queimar: a ida, ou não ida, dos restos mortais de Eusébio para o Panteão Nacional. Abusarei também da paciência do leitor com a magna questão.

Começo por não entender para que existe o Panteão, uma vez que não estão lá nem todos os melhores entre os melhores, nem todos os que lá vemos são dos melhores entre os melhores – sendo certo igualmente que nunca haverá consenso quanto a esse conceito, uma vez que ele exista.

No dia em que os deputados definirem os pressupostos do “direito de admissão”, então sim, veremos se Eusébio cabe nesse fato, embora ninguém duvide de que serão engolidos todos os sapos para que tal suceda, tão forte é a falta de coragem gerada pela supremacia da emoção sobre a razão. Só que a cobardia intelectual esperada é bem-vinda neste caso, pois por muito que se defenda a relevância de presidentes e escritores – e que bem o merece Sophia! – jamais um panteão nacional se poderá desligar da importância popular dos que lá repousem.

Um critério futuro deverá considerar não só a dimensão da personalidade, e o que acrescentou a Portugal e à sua projeção no Mundo, mas em especial a sua resistência na memória coletiva. E se já poucos de nós, injustamente é certo, recordam a obra, por exemplo, de João de Deus, há a garantia plena de que, dentro de 50 ou de 100 anos, Eusébio continuará uma lenda.

Isso acontecerá com as gerações vindouras da mesma forma que admiramos hoje carreiras como as dos “cinco violinos” e de Fernando Peiroteo, o goleador dos goleadores portugueses – que só a inexistência de televisão e de provas europeias, na época em que foram grandes, afastam de exaltação permanente.

A enormidade do seu talento, a vénia internacional, a popularidade que alcançou e a perenidade das imagens que nos ficaram, somadas ao poder e à globalização do futebol, garantem a Eusébio a ida para o Panteão, digam o que disserem as virgens da intelectualidade ofendida.

Canto direto, Record, 11JAN14

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