Esta polícia não quero mais

Em 25 de Abril de 1974 tive um das maiores gozos da minha vida ao assistir, na Rua Sampaio e Pina, em Lisboa, à prisão de diversos agentes da polícia. Psst!, ò amigo, para onde é que vamos? Vou pegar ao serviço, meu alferes… Ná, não vai não, vai mas é para casa que hoje está dispensado… Passe para cá a arma!

Calculo que os leitores mais novos, que quis a graça de Deus não viveram no Estado Novo, não entendam a minha alegria perante a queda de uma instituição repressiva, antiquada, acéfala, violenta e iníqua. Mas os mais velhos, que sentiram na pele as suas arbitrariedades, e a impunidade de que desfrutava, compreendem-me bem.

Com a implantação do regime democrático, e com o tempo, fui passando a admirar os polícias, tanto pela sua crescente preparação e urbanidade, como pela dedicação à causa pública, sentimento que aumentou nos últimos anos depois de todas as desconsiderações e desqualificações – de salário, de material, etc – que têm sofrido, e que afetam tanto a sua dignidade como a capacidade para combater o crime e travar os criminosos. Ou seja, onde há 40 anos via uma ameaça vejo hoje um amigo.

Estou, por isso, perfeitamente à vontade para condenar o excesso de agressividade dos agentes que ontem tinham por missão manter a ordem no Aeroporto Sá Carneiro, à chegada da comitiva do Sp. Braga. Que gesto terá tido aquele homem que vimos arrastado pelo chão, com vários polícias em cima? Ou aquela mulher tratada como um trapo? Assim não, meus senhores.

Deve estar a aparecer o inefável ministro Rui Pereira, com o seu habitual elogio vazio a toda a autoridade que mexe. Será mais um erro político: é que enquanto houver pessoas a saltar de alegria, por causa da bola, da música ou dos touros, são as costas da política e do sr. primeiro-ministro que folgam. Mas num país de cabeça perdida devemos ter tolerância que baste. Bem, para a polícia do “antigamente” é que não. Para essa, será tolerância zero.

Canto direto, publicado na edição impressa de Record de 26 agosto 2010

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