Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Esquizofrenia leonina

 

Podia ser da crise mas não é. Este mal bipolar que atinge muitos adeptos do futebol, doentes que vivem entre o desespero e a euforia, é mesmo próprio da natureza dos portugueses.
Após a derrota de sábado, em Setúbal, os sportinguistas mergulharam numa depressão profunda e de certa forma compreensível. Se a equipa de um clube que luta com dificuldades económicas, e tenta fugir da zona de despromoção, consegue derrotar os leões e reduzir a pó as suas já ténues aspirações ao 3.º lugar, o que poderia o Sporting fazer face ao Manchester City, uma das mais poderosas turmas europeias, que lidera a liga inglesa e afastou o FC Porto da Europa? Levaria quatro ou seria humilhado com uma goleada ainda maior?
Quiseram os adeptos leoninos ignorar dois factores. O primeiro é que o City não é um papão tão grande assim. Tem muitos milionários mas poucas primeiras figuras e uma equipa que fica longe de um Barcelona ou de um Real Madrid. O segundo é que não há partidas iguais, que o Sporting tem excelentes jogadores e que o desaire de Setúbal poderia funcionar, como funcionou, como um desafio ao seu brio e à sua capacidade.
Mas derrotados os “citizens”, logo novas alterações no contacto com a realidade se consumaram, numa esquizofrenia que esquece ser a tarefa da próxima quinta-feira, em Camp Blue, incomparavelmente mais dura do que a executada com tanto êxito – e mérito – em Alvalade. Depois de cinco dias de exagerados temores, entre as confrontos de Setúbal e Lisboa, teremos uma semana de otimismo irracional e desbragado até à segunda mão em Manchester.
Técnicos e jogadores não se deixarão envolver nesse delírio, que poderia, ele sim, redundar em catástrofe. O Sporting conhece agora o que vale e do que é capaz. Se mantiver a atitude e a determinação, a capacidade de sacrifício e a concentração que exibiu há dois dias, o City poderá passar outro mau bocado e ser mesmo eliminado. Mas vai ser preciso correr, lutar e sofrer – muito e sem quebras. E então sim, sonhar.

Podia ser da crise mas não é. Este mal bipolar que atinge muitos adeptos do futebol, doentes que vivem entre o desespero e a euforia, é mesmo próprio da natureza dos portugueses.

Após a derrota de sábado, em Setúbal, os sportinguistas mergulharam numa depressão profunda e de certa forma compreensível. Se a equipa de um clube que luta com dificuldades económicas, e tenta fugir da zona de despromoção, consegue derrotar os leões e reduzir a pó as suas já ténues aspirações ao 3.º lugar, o que poderia o Sporting fazer face ao Manchester City, uma das mais poderosas turmas europeias, que lidera a liga inglesa e afastou o FC Porto da Europa? Levaria quatro ou seria humilhado com uma goleada ainda maior?

Quiseram os adeptos leoninos ignorar dois factores. O primeiro é que o City não é um papão tão grande assim. Tem muitos milionários mas poucas primeiras figuras e uma equipa que fica longe de um Barcelona ou de um Real Madrid. O segundo é que não há partidas iguais, que o Sporting tem excelentes jogadores e que o desaire de Setúbal poderia funcionar, como funcionou, como um desafio ao seu brio e à sua capacidade.

Mas derrotados os “citizens”, logo novas alterações no contacto com a realidade se consumaram, numa esquizofrenia que esquece ser a tarefa da próxima quinta-feira, em Camp Blue, incomparavelmente mais dura do que a executada com tanto êxito – e mérito – em Alvalade. Depois de cinco dias de exagerados temores, entre as confrontos de Setúbal e Lisboa, teremos uma semana de otimismo irracional e desbragado até à segunda mão em Manchester.

Técnicos e jogadores não se deixarão envolver nesse delírio, que poderia, ele sim, redundar em catástrofe. O Sporting conhece agora o que vale e do que é capaz. Se mantiver a atitude e a determinação, a capacidade de sacrifício e a concentração que exibiu há dois dias, o City poderá passar outro mau bocado e ser mesmo eliminado. Mas vai ser preciso correr, lutar e sofrer – muito e sem quebras. E então sim, sonhar.

Canto direto, publicado na edição impressa de Record de 10 março 2012