Errar é moderno na era pós-gramática

Há três erros a fazer escola nas palavras que ouvimos nas televisões. O primeiro, cometido até por oradores mais cultos, é o “acelArar”, que ao contrário de acelerar não vem do latim accelerare, mania maçadora de gente antiga. Não faltará, por isso, quem apareça com modernas justificações para a vitória da fonética sobre a gramática – reforçando, pois, a era pós-gramática.

Outro erro comum, ainda há dias utilizado a propósito dos argelinos que fugiram do aeroporto de Lisboa e dos que foram detidos, é o “conterrâneos” em vez de compatriotas, embora exista a esperança de um árduo trabalho de investigação que tenha levado os jornalistas a conhecer a localidade de nascimento dos cinco magrebinos e de ela ser a mesma porque só assim serão conterrâneos.

O terceiro exemplo, não digo de ignorância primária mas de fidelidade ao portuguesíssimo meia bola e força, é o do funeral. Esta semana, boa parte dos meios referia que o funeral de Mário Soares se realizava “no” cemitério dos Prazeres, em vez de “para” o cemitério. Ensinaram-me os anciãos da tribo jornalística que funeral é a cerimónia, o cortejo fúnebre que antecede a cremação ou o enterro e que se dá, por isso, de um local para outro.

Como estou velho e ultrapassado, senhores telespectadores!

Antena paranoica, Correio da Manhã, 14JAN17

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