Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Em parágrafos – 3

1. Não
sou fã de telenovelas, mas gosto muito de representação e dou sempre particular
atenção ao trabalho dos atores. Não perco, por isso, estes primeiros episódios
de Sol de inverno, com protagonistas
que, à partida, garantem qualidade, como Rita Blanco, que é um caso sério de
talento. Vi-a recentemente em A gaiola
dourada
– um bom filme mas não assim tão bom como alguns o pintaram – num
desempenho extraordinário. A atriz é um daqueles exemplos de supercompetência,
como feliz ou infelizmente acontece já em tantas outras profissões, que
evidencia a cruel pequenez do nosso mercado: modesto em projetos e, como tal,
pobre em oportunidades.

2. E já que me
refiro à Gaiola, aproveito para
sublinhar também a belíssima interpretação de Joaquim de Almeida. Habituado a
vê-lo em banais papéis mais ou menos policiais,
fiquei surpreendido com o elevado nível da construção da sua personagem, um
emigrante português cuja competência profissional lhe dá um certo
reconhecimento em Paris. Só foi pena que o caminho seguido na segunda metade do
filme, com situações disparatadas, retirasse alguma consistência ao que poderá
ser o melhor papel da carreira do ator.

3. Cristiano
Ronaldo estendeu até 2018 o contrato que o liga ao Real Madrid, por 15 milhões
de euros líquidos por época, acrescidos de um mínimo de 6,5 milhões de
contratos publicitários, igualmente por temporada. Há quem se escandalize com
tantos milhões, para mais nos tempos de aperto que correm, mas a verdade é que
o jogador madeirense é um artista planetário – como Madonna ou Tom Cruise, Mick
Jagger ou Rafael Nadal – pago com o dinheiro, não dos impostos dos cidadãos,
mas do negócio que a sua própria atividade gera. Se o Real Madrid, que já muito
lhe pagava, resolveu subir ainda a fasquia, é porque tem garantido o retorno.
Daí não vem mal ao Mundo.

4. Intelectual
brilhante, como ministro Poiares Maduro é uma seca. A insistência com que nos entra em casa com o seu ar de expert começa a ser penosa. Mas não
devemos criticá-lo com severidade porque a ameaça de retirar o original e
avançar com a cópia é real, como se prova pelas últimas intervenções do
secretário Rosalino – esse émulo de Vitalino. Tenhamos fé no conselho do prof.
Marcelo, na TVI: a de que Maduro e Rosalino se calem até às autárquicas. Não
podendo ser para a legislatura, sempre folgavam as costas.

5. Vai linda a
campanha eleitoral para as eleições de 29, mais um saco roto de desperdício de
recursos. Alguns cartazes espalhados por esse país fora, autênticos horrores,
desafiam as mais elementares técnicas de marketing:
com olhos tortos ou falta de dentes, boçais de espécies variadas encostam-se
aos partidos na esperança de um tacho,
por pequenino que seja. Uma tristeza.

6. Os canais
generalistas de televisão esfregam as mãos de contentes com as enormes receitas
das chamadas ditas de valor acrescentado,
que em parte compensam a queda do investimento publicitário. É o fenómeno da raspadinha: quem pior vive, utiliza os
parcos recursos para votar em supostos concursos – com guiões previamente
definidos pela produção – na mira de ganhar um único prémio, atribuído sabe
Deus como. Ele há mistérios… 

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 19 setembro 2013. Tema de Sociedade da semana: nos bastidores da telenovela “Sol de inverno”