Em maio mas já com cheiro a novembro

“Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar essa pessoa dos nossos sonhos e abraçá-la” – Autor desconhecido

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Após 25 de abril de 1974, a Emissora Nacional (EN) foi tomada pelos comissários dos partidos de esquerda, que o major Delfim Moura, líder da comissão ad-hoc indigitada pelo MFA, tinha dificuldade em controlar. E só resistiu no cargo até 29 de maio de 1974, dia em que o então tenente-coronel Calvão Borges, da Força Aérea, assumiu a direção da rádio oficial.

Seria já Calvão a conter o desvio spinolista do 28 de setembro, mas em poucos meses esgotou-se-lhe a paciência e em fevereiro de 1975 pediu a demissão. É que ao domínio inicial do PCP e da extrema-esquerda, seguiram-se as exigências crescentes da gente do PS – que conduzida discretamente por Jaime Gama dominava os plenários de trabalhadores. E reaparecia a voz da direita, representada pelo jornalista Augusto Ribeiro da Silva e pelo seu pequeno grupo de apoiantes do PSD, mais os retornados das ex-colónias.

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A 13 de maio de 1975, perante a saída iminente de Calvão Borges e a recuperação do controlo por parte das forças revolucionárias – o 25 de novembro germinava – trabalhadores ligados ao PS e ao PSD concentraram-se no edifício das Amoreiras, sede da EN. Desfilaram depois até São Bento, tendo uma delegação, de que fiz parte, sido recebida na residência oficial do primeiro-ministro, Vasco Gonçalves.

Calvão Borges seria convocado pelo Presidente Costa Gomes, mas o melhor que se conseguiu foi adiar o problema, já que no início do verão quente de 1975 chegariam à EN uns militares politicamente tão confusos que, logo em setembro, o major João Figueiredo seria nomeado presidente do conselho de administração. Só com o 25 de novembro que se seguiu, e três anos de gestão de Figueiredo, a rádio estatal pôde recuperar a normalidade.

José G. Calvão Borges: engenheiro e general, académico e escritor

calvao11José Guilherme Calvão Borges deixou-nos a 25 de abril de 2001, aos 70 anos. Licenciado em Engenharia Aeronáutica pela Universidade de Michigan, Estados Unidos, chegou a general na Força Aérea e foi professor da Academia Militar. Delegado à NATO, chefiou as OGMA, entre muitos outros cargos. Comendador da Ordem Militar de Avis e Cavaleiro da Ordem do Santo Sepulcro de Jerusalém, académico e autor, escreveu dezenas de livros sobre genealogia e heráldica, um deles a defender o nascimento de Luís de Camões na sua Chaves natal. Em julho de 1975, nomeou diretores de Informação da EN o escriba e o jornalista Mateus Boaventura. Por muito mais do que isso o recordo com saudade.

Parece que foi ontem, Sábado, 24NOV16

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