Em defesa de Carvalhal

Do leitor Jorge Patrício recebi a crítica que passo a transcrever na íntegra e que procurarei rebater no final.

Caro Director do Record

Sou adepto benfiquista e gosto de ler o jornal Record. Todavia, não compreendo o ataque público que o vosso jornal está a fazer ao Carvalhal.

Não foi ele que escolheu a equipa, não foi ele que definiu nada para esta época. Foi terceira escolha para o cargo e tem um salário igual ao de muitos jogadores de equipas de linha média. É sem dúvida o elo mais fraco e o menos culpado, mas é o mais atacado. Ainda hoje o Luis Óscar escreve que ele não é o principal culpado. Então quem é? Porquê essa omissão ao principal culpado e uma identificação completa do elo mais fraco?

Regra geral, considero o Record como isento (de vez em quando há uma ou outra notícia que cheira a frete, mas não são muitas – ao contrário de outros jornais). Mas penso que este ataque ao Carvalhal parece uma campanha que o vosso jornal está a fazer contra esse treinador (vide a capa de hoje do jornal). Pergunto: que mal vos fez o homem para ser tão criticado injustamente? Foi por o ter chamado de Shreck a si?

É óbvio que ele tem responsabilidades, mas o Sporting tem que se convencer que anos de má gestão (e de muitas vaidades pessoais de alguns directores/grupos de associados) só pode dar nisto: falta de dinheiro e de organização para ter uma equipa competitiva. E o nome SPORTING por si não garante vitórias em campo. É  certo que o futebol é  o momento, mas muitos momentos (bons ou maus) são consequncia de uma gestão e organização acertadas (ou não) e é isso que, juntamente com dinheiro, falta ao Sporting.

Porque é que não pedem ao Camilo Lourenço ou a outro jornalista especializado para fazer uma análise rigorosa ao histórico de contas dos 3 grandes? Às delapidações de património (mais no Sporting e Porto) que tem ocorrido? Se no Porto as coisas vão sendo minimazadas com os dinheiros da Champions e das grandes transferências (que cada vez vão ser menos), no Sporting já não há fontes de receita que lhe valham. E isso não é culpa do Carvalhal, nem do Paulo Bento, nem de qualquer treinador que lá passe.

Cumprimentos,
Jorge Patrício

A minha resposta

É um prazer tentar rebater um comentário deste nível, bem escrito, sereno, sustentado, lógico. Vamos então por partes:

1. Pessoalmente, nada me move contra Carvalhal, simpatizo até com ele ainda que não pareça.

2. Como treinador, acho que não tinha currículo para treinar a equipa do Sporting que herdou, embora admita que o tenha para treinar a modéstia do que vai deixar dentro de pouco tempo. É um técnico bom para treinar o meu clube, o Belenenses (onde não triunfou por falta de sorte), não para o Sporting.

3. O facto de me ter chamado Shrek nada me incomoda, até porque comparado com o que por vezes me chamam parece um elogio. Aliás, tratou-se de um desabafo de Carvalhal, indignado com as críticas que lhe têm dirigido. Ele tem esse outro defeito: pouco poder de encaixe para a crítica.

4. A capa da edição de hoje vem nesse sentido. Infelizmente para o Sporting e para o futebol português, a opinião dos que, como eu, não gostam de ver Carvalhal no comando técnico dos leões está a ser confirmada pelos resultados e pela segunda pior série de sempre de insucessos sportinguistas.

5. O leitor acha que a culpa não é dos treinadores, mas sim dos dirigentes, e tem toda a razão. Não tenho poupado igualmente Bettencourt a essa crítica. Mas a verdade é que quem aceita ser treinador do Sporting a qualquer preço sabe que será avaliado pelos resultados. Se forem bons, a crítica engole em seco e os shreks desta vida rapidamente terão de dar o braço a torcer. Mas se forem maus, e esse é desgraçadamente o caso, então os contestadores têm razão: Bettencourt escolheu mal, Carvalhal não serve.

6. A falta de uma “equipa competitiva” não é de agora: foi com estes jogadores que o Sporting alcançou vários segundos lugares consecutivos e se classificou repetidamente para a Champions, foi com estes jogadores que ganhou a Supertaça e a Taça de Portugal, foi com estes jogadores que se encontrava ainda, na altura da entrada de Carvalhal, em condições de discutir os primeiros lugares no campeonato, ainda na Taça de Portugal, ainda na Taça da Liga, ainda na Liga Europa – e tudo tem desabado inapelavelmente.

7. Era com estes jogadores que o Sporting de Paulo Bento discutia os jogos com FC Porto e Benfica, antes de chegar Carvalhal para levar 5 no Dragão e ser goleado pelo Benfica em Alvalade.

8. A equipa que venceu a primeira fase da Liga Europa está hoje, como vimos ontem, a jogar taco a taco com um Olhanense que luta para não ser despromovido. E tem já quatro ou cinco concorrentes diretos à perna, prontos a invalidarem o modestíssimo objetivo de Bettencourt, objetivo que “explica” porque escolheu Carvalhal: quer o 4.º lugar.

9. O Luís Óscar é um jornalista livre e isento, que escreve no Record o que muito bem entende, sem cuidar de saber a opinião do diretor. Um pode dizer branco e o outro preto, é a lei em vigor nos últimos sete anos porque entendo que ela faz a riqueza de um jornal. A verdade oficial aqui não existe.

10. O LO acha que o principal culpado não é Carvalhal? Óptimo, eu também. Mas isso nada diz aos adeptos sportinguistas, que querem é resultados e não paleio. E é a esses adeptos que Carvalhal nada tem para dizer. Gere a desmoralização, a falta de forma e as limitações dos jogadores o melhor que pode e sabe, é evidente, mas sem dispor do estatuto e da capacidade para fazer aquilo para que foi tão ingenuamente contratado: dar a volta ao problema. E disso, que é o que em boa verdade conta, ele não é capaz.

11. Escrevo tudo isto sem animosidade e sem alegria. Raramente tenho desejado tanto estar enganado e ver a realidade engolir-me a teoria. Escrever, produzir mesmo uma manchete, dando conta que Carvalhal venceu a crise e recuperou a “alma” e a grandeza futebolística do Sporting é algo que farei, já amanhã se possível, sem sentir a mínima contrariedade.

Disponha caro Jorge, um abraço
Alexandre Pais

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