Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Em Alvalade é agora ou nunca

O leitor que me perdoe se encontrar, nesta crónica, sinais de falta de lógica ou de senso. É que estou a escrever, e a ver o Sporting-Tondela, ainda esmagado pela dureza brutal da “parede” do Angliru, que os ciclistas da Vuelta subiram estoicamente, deixando-me, esparramado no sofá e 50 vezes mais cansado do que eles…

A propósito: está a ser dececionante a participação de Rui Costa. Após ter ficado em 3.º e em 6.º, nas etapas 6 e 7, veio por aí abaixo. Ontem, perdeu mais 28 (!) minutos e desceu para 52.º na classificação geral, já ultrapassado por Nelson Oliveira. Uma desilusão.

Pois, mas quero falar-lhes do Sporting. Se Frederico Varandas parecia, há poucos meses, um líder de transição que cederia mais dia menos dia à pressão dos contestatários – que iam recolhendo apoios a cada desgraça que se abatia sobre o leão – um número significativo de sportinguistas com memória forma hoje uma trincheira importante no combate ao regresso do “brunismo”, ainda que por interposta pessoa. Tudo por ação de Ruben Amorim e… da covid.

A pandemia, ao impor a criação de um “mundo novo” em Alvalade, pode dar um fôlego extra ao dr. Varandas. Livre das claques até ver, livre de enchentes no estádio enquanto o coronavírus andar por aí, livre de ajuntamentos, apupos e insultos, o líder dos leões pode chegar quase incólume ao verão se o treinador e o plantel – também eles a beneficiarem de inesperada tranquilidade – continuarem a cumprir. Para já, na tabela, olham para cima e não veem ninguém…

A verdade é que o trabalho tem sido sério. Amorim aposta sem hesitações no talento de jogadores jovens e constrói, com inteligência e audácia, uma equipa de raiz. Mas resta-lhe um ano (?) de relativa paz, que pode não bastar para que essa equipa atinja os patamares que lhe são exigidos. E cabe aos sportinguistas decidir o que querem: aproveitar a oportunidade, talvez a última, de dar ao treinador o tempo necessário para cumprir o objetivo ou entrar em parafuso aos primeiros insucessos – e eles virão – e voltar a deitar tudo a perder. A escolha é simples? É, mas sabe-se o que a casa gasta.

Já agora, quem fala de um Ruben, fala de dois. No caso, de Vezo, que se juntou aos emigrantes goleadores do fim de semana – Cristiano, Félix, Jota, André Silva, Ronny e Gelson – e bateu Rui Silva, fazendo com que o Levante levasse um ponto de Granada.

E Pogba? Ainda e sempre a dar razão a José Mourinho!

Parágrafo final para um mito: Sean Connery. Antigo futebolista – do clube escocês Bonnyringg Rose Athletic – recusou, aos 23 anos, uma oferta de 25 libras por semana de outra lenda, Matt Busby, para jogar no Manchester United porque queria ter uma carreira para além dos 30… Praticante emérito de golfe, o inesquecível intérprete da saga de James Bond e de dezenas de filmes que fazem parte da história da sétima arte morreu agora, aos 90 anos e com indícios de demência, na sua casa de Lyford Cay, um condomínio fechado num dos bairros mais ricos do Mundo, na ilha de New Providence, nas Bahamas. Pela importância que teve no meu amor ao cinema, pelos desempenhos únicos que me ofereceu e pelas horas infindas de pura ilusão que passei frente ao ecrã, desde 1962, curvo-me perante a sua memória. Chapeau!

Outra vez segunda-feira, Record, 2nov20