É preciso ser mesmo burro

Já contei aqui: tive um companheiro de trabalho, director de jornal, que um dia, e já lá vão muitos anos – me perguntou se eu sabia quem era o homem do SIS na minha redacção – ele tinha o informador identificado, e devidamente controlado, na sua.

Fiquei de boca aberta, a fazer figura de parvo: não sabia, como nunca soube, nem quis saber. Certo é que segui o seu conselho e, a partir daí, nunca mais mantive uma conversa telefónica que me pudesse comprometer. Não com a segurança do Estado, obviamente, mas com o mais simples compromisso, pedido ou influência. Afinal, tirei o mestrado na era da PIDE, foi só recuperar o velho diploma.

Agora, fico com idêntica cara de parvo ao ler a transcrição de escutas relacionadas com o caso dos vistos gold, em que indivíduos tidos no mínimo como espertos – ou não teriam alcançado os lugares que ocuparam, onde foram colocados pelos lóbis que dominam o aparelho do Estado – se referem, com arrogância e desplante, a pagamentos e respectivos valores, não se coibindo até de explicar que era para os corrompidos ficarem contentes.

Para mais, não faltavam, antes deste processo, outros igualmente mediáticos – como o do sr. dr. juiz que safou o irmão por ilegitimidade na obtenção das escutas – em que confidências estúpidas ao telefone deixaram a rua pejada de cadáveres. Moral da história: ou são burros ou se julgam muito bons e são burros na mesma.

Observador, Sábado, 16ABR15

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