E arranjar “outro” Bas Dost?

Se o futebol se pudesse compreender, não haveria catedráticos desempregados e ex-ajudantes a fazer o caminho. É entre estes últimos que se misturam os apalpadores de terreno, aqueles que são pagos para se testarem à custa do sucesso ou insucesso dos projetos em que se integram. Refiro isto por causa da onda de satisfação bacoca pela partida de Bas Dost, vendido como imprestável e sem um euro de lucro.

Claro que se conta também com o salário – absurdo, reconheça-se – que o holandês deixa de receber, na linha das poupanças conseguidas com Nani, Rui Patrício, William e outros. E assim, de poupança em poupança, ficará apenas uma rapaziada valente à volta de Bruno Fernandes, na verdade o estado a que o Sporting chegou.

O problema maior vem a seguir: encontrar, baratinho ainda por cima, um avançado que marque, em três épocas, a centena de golos alcançada por Bas Dost. Problema, aliás, a juntar aos que já existem. Ontem, os profissionais leoninos voltaram a disfarçar, com tenacidade e competência, as limitações da equipa. Até quando?

No Jamor, o Benfica fez a menos conseguida exibição do início de temporada. Houvesse um pouco mais de categoria individual no Belenenses SAD e outra teria sido a história do jogo. Mas não foi, a dupla-maravilha segue imparável e o 2-0 é que vale. E já que me refiro a uma dupla, há outra, mais à frente, que os doutorados em bola, que pululam nos fóruns, acham que não funciona. Calma, vem aí um clássico, veremos quem tem razão.

Já agora: o VAR está a aplicar uma “arbitragem de microscópio” que me parece deplorável. Invalidar golos como o que seria o segundo do Benfica ou o que daria a vitória ao Manchester City sobre o Tottenham é tirar emoção ao futebol e até verdade ao resultado. Um dia, ainda se anulará um golo porque o marcador rasgou a camisola no lance e quando rematou não tinha número…

E por onde andam os que criticavam Sérgio Conceição por ter proposto a contratação de Zé Luís, um futebolista dito “sem categoria” para o FC Porto? Caladitos, pois então.

De degrau em degrau, escada abaixo, Mario Balotelli – que Vilas-Boas não quis no Marselha, pudera – assinou pelo modesto Brescia, de novo na Série A do calcio. É assim a vida, uns quantos a darem-se ao luxo de atirar pela borda fora as oportunidades que tantos desejariam.

A propósito de talento desperdiçado, uma palavra para o derradeiro “show” do tenista maldito: Nick Kyrgios. Em Cincinnati, o excêntrico canadiano, de 24 anos, perdia o primeiro “set” para Denis Shapovalov, por 5-2, alcançou o 5-5 com ases uns atrás dos outros – alguns a 220 km/hora – evitou um “set point” com um ás num segundo serviço (!) e ganhou o “tie-break”. Entretanto, recebeu assistência do fisioterapeuta, tapou com a toalha uma câmara de TV, provocou um intervalo para ir aos balneários partir raquetas (!) e fez repetidos insultos ao juiz de cadeira – sem se esquecer do seu ódio de estimação por Rafa Nadal… – até se desconcentrar de vez, ceder nos dois últimos “sets” e ser eliminado. Para despedida, não cumprimentou o árbitro e cuspiu na sua direção, foi multado em 113 mil dólares e comemorou a vertigem no Instagram – e num “happening” nas bancadas. Grande tenista e grande maluco!

O parágrafo final vai hoje cá para o escriba, que a 18 de agosto de 1964 – ai, ai… – assinou, no “Mundo Desportivo”, a sua primeira reportagem. São 55 anos de estrada, leitor. Obrigado.

Outra vez segunda-feira, Record, 19ago19

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