É a cabeça de Rúben Amorim que faz o homem

Descobridores de pérolas que somos, tecemos agora loas a Rúben Amorim com a mesma cega certeza que tínhamos no futuro grandioso de Bruno Lage na Luz. Ignorando, vá lá saber-se porquê, que tudo dando aos audazes, nada o futebol lhes garante.

Não é preciso ir mais longe, basta ver o caso de José Mourinho, o melhor treinador português pelos títulos que conquistou, e que conseguiu um feito que dificilmente outro técnico lograria: interromper, em Espanha, a hegemonia absoluta do Barcelona, numa altura em que os catalães dispunham daquela que foi, talvez, a mais fabulosa equipa da história do futebol.

Certo é que após o insucesso no Chelsea, Mou foi despedido pelo Manchester United e sofre hoje as consequências de um regresso algo precipitado à ribalta – os “spurs” eram uma opção de alto risco – com o Tottenham a cair para a nona posição na Premier. E a poder ficar mesmo fora da Liga Europa e a complicar muito a vida de um treinador que, aos 57 anos, acumula um capital inigualável de experiência, conhecimento e mediatismo, que chegaria, numa atividade normal, para o manter no topo até à eternidade. Mas o futebol depende de demasiados imponderáveis para que se possa definir um objetivo e ter uma garantia mínima de o poder cumprir.

Rúben Amorim parece dispor de uma consciência da realidade diferente da que exibia o ex-treinador do Benfica, cuja postura misturava a afabilidade com o convencimento de quem viera para ficar. Declarações de Amorim como “é trabalho, sorte e tudo misturado” ou – sobre Lage – “um dia é ele, outro dia serei eu” são sinais de maturidade e sabedoria. E revelam a convicção plena, e nada artificial, que o futebol é o momento e que uma bola que bate na trave ou um erro do VAR podem precipitar uma crise que se abaterá sobre o que Carlos Carvalhal considera “a zona mais frágil” – a cabeça do chefe da equipa, claro.

Permanecendo a dúvida, vivamos então um dia de cada vez. E o de hoje mostra-nos um profissional preparado para liderar, um trabalhador paciente, um estratega sagaz e, especialmente, um hábil “colador de cacos”. Amorim começou por pôr a nu uma evidência negada pela insensatez de gestores de aviário: vale mais – muito mais! – recuperar talentos “perdidos”, como Jovane Cabral, ou lançar jovens promissores, como Eduardo Quaresma, fontes de receitas futuras, que gastar fortunas com barretes grotescos, como Jesé ou Bolasie. Parece simples? E é, mas houve necessidade de fazer descer de Braga à capital a inteligência capaz de explicar o óbvio aos entendidos zero.

Resta o que há de vir, que será o que for, mas a mentalidade de Rúben Amorim faz-me acreditar no seu êxito. Em Alvalade ou noutro sítio qualquer. Porque é a cabeça que faz o homem.

Um último parágrafo para uma pergunta: após 42 jogos em que consegue apenas 13 vitórias, um treinador deixa o clube porque “bate com a porta” ou porque quem lhe pagava o quis ver pelas costas? É isso, leitor, a sua resposta é igual à minha.

Outra vez segunda-feira, Record, 6jul20

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