Dossier has been – Benfica, 5 – R. Madrid, 1 – e o Vale dos Caídos de que Dias Ferreira se foi lembrar

 

Dias Ferreira respondeu ontem ao meu Passe curto, “Porque escrevem eles no Record”, com o texto abaixo reproduzido, já publicado nas edições impressa e online, e que me merece o comentário que segue.

Estou genericamente de acordo com o que Dias Ferreira escreveu, embora, a exemplo dele, “muitas vezes não concorde com certos artigos” que assina, ou opiniões que emite noutros media, hoje ou no passado, antes também, portanto, de ter sido convidado a escrever no Record, em nome da pluralidade de opiniões que marcará o jornal enquanto tiver a atual direção.

O primeiro reparo que faço tem a ver com o derradeiro parágrafo da sua prosa, quando cita uma manchete do “Mundo Desportivo”, com alguma falta de memória, uma vez que esse polémico título foi, de facto, “O Vale dos Caídos mudou-se para Lisboa”, na sequência de uma histórica jornada europeia do Benfica. Em Fevereiro de 1965, os encarnados eliminaram da Taça dos Clubes Campeões Europeus o Real Madrid, batido na Luz por 5-1, com golos de Eusébio (2), José Augusto, Simões e Coluna. Com esse resultado, o Benfica, que perdera por 2-1 em Chamartín, passou às meias-finais, tendo eliminado ainda o Vasas de Budapeste (1-0 fora e nova goleada, 4-0, na Luz), e perdido a final para o Inter de Milão.

No “Mundo Desportivo”, a crónica desse jogo começava assim: “Não foi realmente a batalha de Aljubarrota. Nem tão pouco a de Valverde, ou qualquer outra em que os espanhóis e os portugueses tivessem escrito páginas gloriosas da sua história. Mas foi bonito assistir-se à vitória do futebol do Benfica sobre o do Real Madrid.” Mas do lado de lá da fronteira o regime de Franco considerou a manchete uma afronta e do lado de cá o regime-irmão de Salazar de imediato a lavou. O “Mundo Desportivo”, que era trissemanário, esteve uma semana suspenso, e o seu chefe de redação, o jornalista José Valente, foi despedido. Isso tocou-me bastante, não só pela violência da medida como pelo facto de ter sido José Valente a “contratar-me”, no Verão anterior (1964), para fazer a reportagem para o MD dos Jogos da FISEC, em que participei, e que se reralizaram em Gerona (Espanha).

Quando o jornal regressou às bancas, o comunicado da empresa, proprietária também do “Diário de Notícias”, não podia ser mais claro: “A Empresa Nacional de Publicidade e o director do Mundo Desportivo lamentam e repudiam as expressões contidas numa crónica inserida neste jornal e que muito feriram a sensibilidade dos seus leitores. Ao autor da referida crónica, chefe de redacção do Mundo Desportivo, único e total responsável pelo escrito que veio a público, foram aplicadas as sanções que o caso requeria”.

Dias Ferreira, ao recordar este tenebroso episódio, não se esquece, e bem, de marcar as distâncias com o “É Carvalhal ninguém leva a mal” que tanto o indignou: “Não há comparação, tal a enormidade da ofensa à dignidade do povo espanhol”, escreve. Mas também aí quero fazer um reparo. É que o Vale de los Caídos não é um monumento erguido ao povo espanhol e muito menos à sua “dignidade”. É, sim, uma homenagem do regime franquista aos espanhóis que venceram outros espanhóis numa odiosa guerra civil.

É também por isso que gosto de ter Dias Ferreira a escrever no Record: somos… diferentes.

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A um leitor desconhecido
Ala direito

 

Num tempo em que se fala tanto (mas não se escuta tanto) sobre liberdade de expressão e opinião, e mesmo sobre o controlo dos meios de comunicação social, não fará muita falta que eu diga alguma coisa sobre o assunto, embora no meu último artigo até tenha abordado a crítica e a má-língua.

Não consigo porém resistir a dizer algo sobre o “Passe curto” do Director deste jornal na passada quarta-feira, porque ele justifica, de uma forma linear e sintética, as razões pelas quais eu escrevo neste jornal, sem qualquer violentação da minha consciência e liberdade, não obstante muitas vezes não concordar com certos títulos ou artigos, ou até mesmo com a sua linha editorial.

Na verdade, e sem falsas modéstias, o convite que me fizeram – vai para mais de três anos – não será um acto de coragem, mas é, sem sombra de dúvida, uma acto inequívoco de respeito pela liberdade de expressão. Anfitrião e convidado, nenhum deles tem dúvidas que se podem criticar mutuamente, sem quebra do respeito mútuo e da liberdade individual. É assim que nascem as relações duradouras: sem equívocos. Começou como tinha de começar entre pessoa singular e colectiva que se conhecem, e que sabem qual é a “linha editorial” de cada um deles – com um aperto de mão; e acabará certamente um dia, com igual aperto de mão, em nome da liberdade de opinião de que nenhum de nós, e ainda bem, quererá abdicar. Eu hei-de ser passado, e muitos dos que hoje editam o jornal também o serão. Mas um bem teremos de deixar aos nossos descendentes, que é este sentimento arreigado à liberdade de expressão e pensamento, pois sem estes princípios não haverá futuro.

Curiosamente, o leitor que o Director cita refere-se a dois colaboradores deste jornal e também igualmente colaboradores da SIC, embora um seja mesmo jornalista de profissão, e o outro um simples comentador amador. E não menos curioso é o facto de tanto neste jornal como naquela estação televisiva, sempre, um e outro, terem manifestado as discordâncias um do outro. Fomos amigos e hoje estamos de relações cortadas, mas, pelo menos da minha parte, isso nada tem com liberdade de expressão e opinião.

Será também curioso, mas não simples acaso, o facto de estarem nos mesmos locais. Também na SIC discordo muitas vezes de opiniões e análises, como na SIC existem pessoas que discordam de mim. É por isso que também me sinto bem naquela casa: concordando ou discordando não cheira mal, cheira a liberdade.

E é em nome dessa liberdade que repudio o título sobre Carvalhal. Uma coisa é criticar a competência profissional de alguém; outra coisa é tentar achincalhar a dignidade profissional de um homem.

Volto a lembrar um célebre título do “Mundo Desportivo” após uma derrota do Real Madrid com o Benfica: “O Vale dos Caídos transferiu-se para a Luz”. Não há comparação, tal a enormidade da ofensa à dignidade do povo espanhol. Se cito esse título, é mesmo só para lembrar que o Real Madrid existe como grande instituição, e o jornal há muito que o deixou de ser!…

Autor: DIAS FERREIRA
Comentários online
• 20:51 – theprodigy83
O Utilizador Registado que comenta habitualmente como benfiquista, aqui faz-se passar por sportinguista. Incrível a mesquinhice a que chega num simples espaço de comentário.
• 19:04 – joao
Um bom Sportinguista quer sempre as derrotas do Porto e MAIS as do Benfica.Quando se assiste a jogos internacionais de ambos,ha sempre aquele tremor que nao se manifesta mas quando falham um golo,pensa-se, sente-se, porra ate eu marcava aquela bola. Nao gostamos mas SENTIMOS que gostamos que eles INIMIGOS ganhem. Resto e musica.Nao gosto do Benfica mas fora de portas que ganhem,como o Porto tambem.
• 18:57 – Mokuna
Um Título de jornal tem por fim chamar a atenção do potencial leitor e comprador e por isso tem de ser original e algo sensacionalista ou jocoso.Muitas vezes,embora não devesse,a notícia não confirma,por vezes até contraria,o sentido que o título sugere para os factos.No entanto,quando estão em causa valores como a dignidade e a integridade das pessoas deve haver cuidado pois um Título exposto é lido por milhares de passantes e o desporto não é para odiar ninguém, seja do Porto ou do Benfica.
• 18:38 – Utilizador Registado
U m bom Sportinguista tem obrigação de odiar sempre o Porto e o Benfica. Mesmo nos jogos internacionais isso deve acontecer,ainda que seja contra uma equipa do diabo. Não acredito e nem acreditarei que entre uns e outros digam que nos jogos internacionais querem que ganhe o porto ou o benfica…porque etc..etc… Por mim ,fico sempre feliz que o porto e benfica perdem. Creio que em algumas situações fico mais feliz com as derrotas do porto e benfica,que com as vitórias do scp- Por issi dei
• 18:12 – O Lampião de 86
Tá sempre com o Benfica na boca… impressionante!
• 14:12 – Utilizador Registado
este senhor nada tem de credível,a prova está que no elenco directivo a que pertence foram feitas os maiores danos instaticionas ao SCP,.como Dirigente é aliado ao maior advesário do nosso SCP ,como profissional recordo-vos o caso(MIGUEL)ignorante em toda a linha,com esta GENTE será difícil chegarmos aquilo que merecemos. ETERNAMENTE SPORTING
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