Dois meses depois, só um fantasma

Agosto anda maluco por cá. Como se não chegasse a brutalidade dos incêndios, cai um avião na praia e tomba um carvalho na romaria, ou seja, nem precisávamos que nos atingisse o terrorismo para chorarmos mortos e feridos.

Portugueses que somos, interessa-nos primeiro conhecer o número de vítimas e, mesmo antes disso, começamos a procurar culpados, ainda que a força da natureza seja incontrolável e o diabo espreite atrás da porta – e contra isso o homem tenha o peso do grão de areia.

A televisão complica a vida aos responsáveis por omissões e negligências, vergastados diariamente pela comunicação social digna desse nome, que tem o dever de insistir até cair a página dos últimos dias. Mas os visados são como os vírus da gripe, que de ano para ano encontram novas resistências às velhas vacinas. Ainda agora, a propósito do carvalho, que estaria tão podre como estavam os cidadãos de alertar quem de direito para os perigos de poder acontecer o que aconteceu, lá fomos remetidos para o inquérito e para “o total apuramento da verdade” – e aí o “total” serve para que seja nunca e a responsabilidade morra solteira.

Veja-se o caso de Pedrógão: dois meses passaram e de culpados só conhecemos o SIRESP, um fantasma, coisa nenhuma.

Antena paranoica, Correio da Manhã, 19AGO17

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