Colunista do "Record" e do "Correio da Manhã", anarco-individualista e adepto do Belenenses e do Real Madrid, Alexandre Pais foi diretor do "24horas", de 2001 a 2003, e do "Record", de 2003 a 2013, tendo iniciado o seu percurso jornalístico no "Mundo Desportivo", em 1964.

Dois centrais, a idade e o preconceito

Voz de comando, eis o que falta no “passador” que é a defesa do Benfica: nove golos sofridos em três jogos, um desastre. Além disso, um meio campo ainda indefinido – à sétima jornada! – macio e pouco eficaz na recuperação da bola, cria à frente dos centrais um deserto que os deixa numa situação de debilidade. Não há Lucas Veríssimo que resolva esse problema.

Claro que é mais fácil esquecer as circunstâncias e apontar culpados, gostamos de sangue. Otamendi é o visado por excelência porque passou pelo Dragão e está sujeito a tolerância mínima. Veio do Manchester City e atua, desde 2009, na seleção argentina, somando 72 internacionalizações, mas o que se releva é a provecta idade… 32 anos! Vertonghen come por tabela. Jogou no Ajax e no Tottenham, integra a equipa nacional belga desde 2007, com umas impressionantes 120 presenças, mas os 33 anos levam os adeptos a torcer o nariz sempre que, como agora, as derrotas aparecem.

Trata-se de um preconceito, que a titularidade de Pepe, no FC Porto e na Seleção, aos 37 anos, denuncia com facilidade. Como o poderia fazer o caso de Ricardo Carvalho, campeão europeu aos 38. Ou como outro bravo de 2016, Bruno Alves, que também com 38 anos é ainda titular e capitão do Parma. Ao pé deles, Otamendi e Vertonghen são uns “meninos” – para usar um termo tão caro aos excitados narradores dos “diretos” televisivos.

Melhor seria que se olhasse para a instabilidade do Benfica nas laterais – que as alterações feitas por Jesus nas partidas com Rangers e Sp. Braga deixaram mais a descoberto – ou para o relativo caos que se vive no meio campo, sem que por lá se vislumbre quem possa cortar linhas de passe e simplificar a tarefa ao belga e ao sul-americano. Taarabt ataca melhor do que defende, Weigl não é tão agressivo como se impunha, Samaris está sem ritmo competitivo e o “Gabi” joga devagar. O que se torna é mais simples acusar um central por não ganhar um “sprint”, se calhar não por ser “velho” mas por ter subido demasiado face ao buraco aberto à sua frente… Como se Ruben Dias ou Ruben Semedo – para citar dois não veteranos chamados por Fernando Santos – nunca percam um lance em velocidade… Só que isso também não interessa nada!

A propósito do engenheiro, alguns sinais preocupantes: a lesão de Pepe, a dúvida sobre Cristiano, a má forma de Bernardo Silva… E outros que nos transmitem confiança: a grande condição de João Félix, Diogo Jota, Bruno Fernandes, Danilo, Cancelo e Raphael Guerreiro, a revelação de Pedro Neto… A ausência da convocatória de André Silva, que continua de pontaria afinada num campeonato difícil, é que parece ser um trunfo desperdiçado. Porque a verdade é que se perdermos com a França, adeus Final Four da Liga das Nações.

Último parágrafo para o Sporting, que como quem não quer a coisa não só segue em primeiro na liga – com Benfica e Sp. Braga a quatro pontos e FC Porto a seis – como tem o melhor ataque e a melhor defesa. Creio que nem o Bruno Nogueira me conseguiria dar mais vontade de rir.

Outra vez segunda-feira, Record, 9nov20