Do trauma superado pelo FC Porto ao exílio de Fabiano

CCExilados. Interrompi uma tarde perfeita por causa do clássico. Via o superfechado Arsenal-Chelsea e ouvia o sempre excelente Luís Norton de Matos, enquanto mergulhava na leitura de “Os exilados não esquecem nada mas falam pouco”, um notável ensaio de Manuel Pedroso Marques, que o autor define como “uma reflexão esboçada sobre memórias vividas, lidas, testemunhadas”. Uma obra densa, profunda e rigorosa, dedicada aos que tiveram de abandonar a terra que os viu nascer, e editada numa altura em que, à frente da ilha italiana de Lampedusa, a União Europeia forra com mais toneladas de euros um novo muro da vergonha: o que nos protege de uma multidão crescente de “desperados”, que nos propomos alimentar e vestir antes de os devolvermos, pela força, aos campos da morte onde os exterminadores aguardam a sua volta.

Cheiros. Mudar para a Luz implicava trocar o “chip” e aceitar a pena de ouvir, no outro canal da Benfica TV, o tal comentador muito experiente no “cheiro dos balneários”, como o próprio se reclama, mas pouco à vontade com os aromas da isenção e da gramática. É a vida.

Expatriados. Por falar em “exilados”, Benfica e FC Porto entraram em campo com 19 estrangeiros, 12 brasileiros. São exilados de luxo, é certo, vieram atrás do dinheiro, mas nem por isso fogem ao conceito de Bertolt Brecht, que o coronel Pedroso Marques cita no seu trabalho: “Sempre achei falso o nome que nos davam: emigrantes. A palavra quer dizer expatriados; mas nós não partimos por nossa vontade, para livremente escolher outra terra. (..) E o país que nos recebe não será um lar; é o exílio”.

Dúvida. O início da partida esclareceu a dúvida maior que se colocava: teria o FC Porto ultrapassado os efeitos negativos, físicos e psicológicos, da goleada de Munique? A verdade é que os portistas sacudiram o trauma e atuaram ao nível do Benfica. E se o embate do Emirates se rodeava de cautelas hiperdefensivas e iria acabar com o mesmo resultado (0-0) – Wenger tornou a não conseguir vencer Mourinho e vão 13 jogos! – águias e dragões confrontaram-se nos 50 metros que separam os meios dos respetivos meios-campos. Um exagero de caldos de galinha que prejudicou o que tinha de ganhar, o FC Porto, e uma frustração patente, no final, quando um abraço e umas festinhas na cabeça, que pareciam encerrar para já a guerra de palavras entre Jesus e Lopetegui, ia acabando à pancada, com o “expatriado” nada condicionado por não estar no Porto e muito menos no País Basco. “Foi da adrenalina!”, explicou o nosso, o Jorge. Claro, podia lá ser de outra coisa.

Conselho. Para Lopetegui, o único culpado a punir pela derrocada no Allianz Arena foi Fabiano, ontem substituído por Helton que, vendo bem, tem uma classe superior ao esforçado ex-titular. Ao brasileiro destituído, o Dragão deve agora parecer não um lar, mas o exílio a que se referia Brecht. Dou-lhe um conselho: ponha os olhos em Júlio César, que levou sete da Alemanha no último Mundial e dá hoje uma segurança tremenda à baliza do Benfica. É: a vida dá muita volta.

Contracrónica, Record, 27ABR15

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